vai um pãozinho aí? |
IMPORTANTE: Todo o texto foi elaborado por mim tendo por base minhas experiências profissionais na área de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente. Os registros fotográficos também são de minha autoria. Quando houverem informações ou imagens de outras fontes, elas serão mencionadas. Não me oponho ao uso deste material parcialmente ou na integra para fins educativos ou para a confecção de trabalhos escolares, porém, por uma questão de respeito, peço que qualquer imagem ou trecho de textos retirados deste Blog mencionem o link:
Com a correria da vida cotidiana é cada vez mais freqüente que as pessoas não tenham tempo de cuidar do próprio alimento. Homens e mulheres levam uma vida cada vez mais cheia de tarefas. Além do trabalho (ou dos trabalhos), que tem por finalidade garantir a todos os meios para fazer parte deste mundo de consumo, novas tarefas roubam o tempo necessário para atividades como cozinhar, limpar a casa, etc.... Uma, duas, três... várias vezes por semana recorremos ao alimento feito em estabelecimentos comerciais dos mais variados ramos de atividade ou compramos coisas semi prontas e congeladas. É quase unânime que alguns temperos e conservantes utilizados nos alimentos nos causam enjôos, uma louca vontade de beber água, inchaço e é difícil manter o mesmo fornecedor por muito tempo. Mesmo nos lugares que afirmam fazer coisas naturais, light, diet e caseiras, usam-se muitos temperos prontos e coisas industrializadas.
Não bastasse isso, temos também que nos preocupar com as condições de higiene nas quais os alimentos que comemos são armazenados, preparados, servidos e consumidos. Pouca gente dá importância a isso. É estranho, mas já estive participando de interdições de estabelecimentos em que, mesmo vendo toda a falta de higiene que estávamos encontrando no local, alguns consumidores pediam: “dá mais um salgado deste”. E olha que era filme de terror – ratos ... baratas ... coisas vencidas ... muita sujeira!
Não é hábito do brasileiro exigir seus direitos. Além disso, temos uma população que foi educada a olhar um político desviando dinheiro e se conformar dizendo: “todos eles roba, é assim memo, faze o que?”. Dentro deste quadro, poucos são os que se preocupam com as coisas que refletem em suas próprias vidas. E nisso incluo a alimentação. Quando entramos em alguns estabelecimentos como: restaurantes, lanchonetes, pizzarias, açougues, padarias, quitandas... bares... de cara já é possível notar se o local está bem cuidado ou não. Lugares sujos não conseguem disfarçar muito a sujeira, basta estarmos atentos. Em alguns restaurantes, a cor da porta que dá acesso à cozinha já pode dizer muito sobre o lugar. O chão, as paredes, o teto, a iluminação, os uniformes dos funcionários e, principalmente, o cheiro de alguns estabelecimentos desmascaram qualquer fachada cheia de coisas brilhantes, cromadas e sedutoras. Cheiros que sinto com freqüência são: cheiro de ratos, cheiro de baratas, cheiro de venenos, de esgoto e de coisas podres. E não é raro. Antes de escrever esta postagem, passei em 4 supermercados da Cidade para gastar meu mísero ticket. Observei em todos eles vários problemas. Os principais eram: falta de higiene e produtos expostos de forma inadequada (sem identificação ou fora de temperatura).
Falta de higiene é moleza de ver. Dê uma agachada e olhe por baixo das prateleiras, gôndolas e equipamentos... normalmente tem de tudo. Quanto aos cheiros... só sentindo mesmo. Agora, quanto aos produtos, fique atento. Coisas sem rótulos, fora de temperatura, vencidas... tudo isso é quase regra em todos os estabelecimentos de todos os lugares do Brasil em que já estive.
Pela Legislação brasileira, os produtos de interesse à Saúde devem possuir informações obrigatórias. São coisas como: nome do fabricante; endereço; CNPJ ou outro registro válido; se forem produtos de origem animal devem possuir carimbo de inspeção – SIF, por exemplo; modo de conservação, incluindo temperatura e condições de armazenamento e; data de validade... entre outros itens.
Quase todos os produtos com ingredientes de origem animal devem ficar refrigerados ou em estufa (aquecidos). As temperaturas necessárias variam de acordo com o produto. Para alimentos quentes, o ideal é uma temperatura acima dos 70ºC. Já os que necessitam de refrigeração podem exigir -18ºC para os congelados, 0ºC à 5ºC para um bacalhau salgado (pode prestar atenção na próxima compra. Nada de temperatura ambiente. Se o bacalhau estiver levemente rosado, passe longe) ou até 16ºC, como é o caso das margarinas.
Se você começar a prestar atenção em todas as coisas que te expõem ao consumo de microorganismos, coliformes fecais e outros bichinhos do mal, tendo consciência de que isso pode levar anos para te prejudicar (Sabe o cigarro e a bebida? São coisas que consumimos e que levam anos para repercutir em doenças, mas chegam lá. O consumo de alimentos contaminados também pode levar anos para prejudicar a saúde de alguém, mas chega lá). Um salgado de carne moída, você deixa fora da geladeira ou de uma estufa numa boa? Cuidado! Quando você entra em padarias ou mercados que expõem produtos deste tipo sobre balcões e mesas, a chance de haver uma carga microbiológica nociva à sua saúde é muito maior. A cada 20 minutos, algumas bactérias podem dobrar a população existente no alimento, principalmente em temperatura ambiente. Para isso é bom ter consciência também de que todo alimento possui uma carga de microorganismos, o fato é que nosso organismo reage e nos defende. O problema é começar a exigir que o organismo faça uma guerra por refeição... isso pode acabar com a sua qualidade de vida.
Causo nº. 01
Certa vez... ainda com pouca experiência de Vigilância Sanitária, caminhávamos eu e um Fiscal de Obras por uma movimentada rua da Cidade. Num determinado ponto o cheiro de queijo ficou muito forte. Parei olhei para o lado e vi um caminhão estacionado. Havia um cara andando sobre a carga e algumas caixas na calçada. Quando olhei e comecei a entender o que estava acontecendo, a seguinte cena se construiu na minha frente:
Um caminhão aberto estava repleto de queijo fresco (queijo mineiro). Eram caixas vazadas (como as caixas das quitandas) cheias de formas de queijo. As formas são abertas tanto por cima quanto por baixo. Por cima da carga – e por cima mesmo, sem nenhuma proteção – além do cara andando, havia gaiolas vazias (mas sujas), um vídeo cassete quebrado, baldes, uma escada, algumas cordas e outros objetos sujos. Na calçada umas 6 caixas com queijo, também diretamente no chão. Um outro cara se preparava para levar as caixas para dentro de uma casa ao lado de um estabelecimento que montava pizzas. Uma cena surreal, inacreditável.
Parei e perguntei ingenuamente: “Cara, o que é isso?”. O cara que estava sobre os queijos disse naturalmente: “é queijo, uai!”. Depois de muita discórdia, eles ainda tentavam me convencer que o queijo seria lavado antes de ser vendido e que esse era um procedimento comum.
O queijo havia vindo de Minas Gerais até Araraquara num caminhão aberto, coberto apenas por uma lona e com vários objetos por cima. Os queijos das caixas armazenas por cima estavam marrons.
Toda a carga foi enterrada por máquinas na Usina de Lixo. Na época, meus superiores, talvez numa forma de castigo, me fizeram ir até a Usina dentro do caminhão que eu acabara de apreender e junto com os dois caras. Da hora da saída do centro da cidade até a Usina, fui ouvindo várias propostas e ameaças. Um dos caras dizia: “Você num tem coração, cara...”. Como se ele, comercializando lixo para as pessoas, tivesse...
Vamos direto à algumas fotos que exemplificam muito bem a total falta de respeito de alguns proprietários de estabelecimentos comerciais e de seus funcionários para com os consumidores (para conosco).
recheio de bolo com formigas sabem aquele bolo formigueiro? este é um ingrediente original! |
recheio de bolo observem quanta sujeira dentro e reparem no cabo da colher quantas vezes já caiu e foi pego de dentro do creme!? |
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tanque de lavagem de utensílios de restaurante a máquina é um descascador (sujo) de batatas |
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maionese pronta para consumo reparem que o fundo de todas as travessas tocam os alimentos |
Certa vez... num renomado estabelecimento de frios e massas da Cidade, pela enézima vez havia uma quantidade considerável de queijo sem qualquer identificação e armazenado em condições inadequadas de temperatura (cerca de 45kg). Além da exigência legal sobre o ponto de vista da Vigilância Sanitária, isto também indica sonegação fiscal, que é prejuízo para toda a Sociedade. Sob o prisma da Saúde, não dá pra confiar em produtos que não se sabe de onde vem. Quem trabalha em Vigilância Sanitária sabe disso. Outro aspecto importante deste causo é que orientações sobre este tipo de problema já haviam sido feitas no local muitas vezes e por vários fiscais.
Conversei com os proprietários, mostrei o número de vezes que este item já havia feito parte de folhas de orientação e até de autuações e optei por apreender e inutilizar as mercadorias, conforme preconizado na Legislação vigente naquela época. Liguei para meus superiores e solicitei o amparo de um veículo para o transporte das mercadorias até a Usina de Lixo. – Isto mesmo, ainda hoje muitas equipes de Vigilância Sanitária entram em ônibus para depois fazer vistorias nas áreas de manipulação dos restaurantes. Não há veículos... e certas vezes nem EPIs. – Como em quase todas as cidades brasileiras, Vigilância em Saúde não é prioridade. Desta forma, não havia nenhum veículo para tal atividade, notei também certa intenção de meus superiores em não facilitar meu trabalho. Resolvi interditar as mercadorias e busca-las no dia seguinte para o descarte. Fiz todos os documentos necessários – e são vários – e coloquei tudo em sacos pretos lacrados com lacres numerados. Nos documentos anotei informações quanto às responsabilidades civis e criminais no caso do consumo, comercialização ou ocultação dos produtos, tudo conforme a Lei.
No dia seguinte, voltei acompanhado por mais um Fiscal e pela minha Técnica responsável na época(pessoas dedicadas ao trabalho que continuo admirando). Para nossa surpresa, assim que entramos notamos um casal passando no caixa com um queijo muito parecido com os que eu havia interditado. Entrei um pouco mais no estabelecimento e vi que quase todo o queijo e os outros produtos que deveriam estar interditados estavam de volta em seus lugares na área de venda.
Pedi imediatamente que chamassem os responsáveis pelo local. Todos os funcionários diziam que os responsáveis estavam fora da Cidade e que o “Vereador 1” havia sido chamado pelos responsáveis pelo estabelecimento para intervir no caso da apreensão. Segundo os funcionários, o “Vereador 1” teria ido ao estabelecimento durante à noite e teria pessoalmente rompido todos os lacres e sacos dos produtos, ajudado a coloca-los de volta na área de venda e informado que era só dizer pro Fiscal que ele (“Vereador 1” ) tinha autorizado vender aquelas coisas.
Na hora não deu nem para acreditar, mas, como o “Vereador 1” era (e é) famoso por quebrar galho de pessoas que estão com problemas com a fiscalização ou com multas e tributos, achei a estória bem possível de ser verídica. De qualquer forma, meu trabalho no local não tinha qualquer relação com o “Vereador 1” , muito pelo contrário. O comportamento dele está longe de colaborar com a Vigilância ou com as necessidades reais da População. Os únicos favorecidos em situações assim são os proprietários e o próprio vereador, que faz sua mediazinha, mesmo sendo seu ato danoso à População.
Informei aos funcionários que se os responsáveis, ou seja, aqueles que haviam assinado os documentos não se apresentassem no local, eu seria obrigado a chamar uma viatura da Polícia Militar (e devo dizer: precisei chamar viaturas umas 4 vezes. Sempre foram super profissionais e atenderam com muita rapidez e eficiência os chamados – ainda bem!). Os funcionários começaram a fazer várias ligações até que me avisaram que os proprietários estariam ali em 30 minutos.
Enquanto aguardava, meu telefone tocou. Para minha surpresa era um “Assessor de Gabinete da Prefeitura”. Me questionou sobre o que estaria ocorrendo e se haveria alguma forma de contornar aquilo. Expliquei tudo, inclusive o número de vezes em que as orientações relacionadas ao problema foram passadas por escrito aos responsáveis. Ele rodeou, dizia sem dizer ... até que perguntei: ““Assessor de Gabinete da Prefeitura”, o que você de fato quer que eu faça aqui?”. Ele então respondeu: “Não tem como deixar quieto isso aí? Numa próxima vez você toma a atitude que for necessária.” Respondi: “Esta é a atitude necessária desta vez. Se você quer que eu cancele algum documento ou alguma ação minha neste local, é só me mandar por escrito.” Ele rapidamente disse: “Eu não posso fazer isso!” Aí eu disse: “Ah! E eu posso? Um simples fiscalzinho!” Para concluir ele soltou uma pérola: “Desta forma você não ajuda em nada o nosso Governo.” Respondi: “Não sou pago para ajudar nenhum Governo, sou pago para fazer meu trabalho de fiscalização e meu público final é a População. Se você acha que proteger o causador de um problema recorrente que põem em risco à saúde das pessoas é ser contrário a um governo, você é que deveria estar fora do governo!” E não é?
Os responsáveis chegaram e confirmaram a estória contada pelos funcionários. Reafirmaram a conduta lamentável e criminosa do “Vereador 1” .
Dois queijos haviam sido comercializados. Isso seria motivo para que as coisas ficassem mais complicadas para quem tinha assinado a papelada. Como ocorreu esta vexaminosa interferência por parte do “Vereador 1” , optei por apenas descartar as mercadorias que estavam disponíveis, mas não sem esclarecer a importância de certos padrões de qualidade à pessoa responsável. Hoje, alguns anos depois, consumo neste local e noto não haver ressentimentos por parte dos proprietários, porém, um monte de mercadorias ficam expostas fora de temperatura e sem os rótulos... Devem ter mudado a lei.
Vamos a mais exemplos:
utensílios usados por confeiteiro em padaria |
veneno inadequado colocado ao lado de estante de pães em padaria prestem atenção no piso |
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balcão de lanchonete além da sujeira... há canos de esgoto abertos |
paredes acima de balcão de lanchonete |
formas de padaria no chão em área externa o local era uma casa adaptada para padaria - sem condições |
Causo nº. 03
Certa vez... recebemos uma notificação de uma funcionária que prestava seus serviços técnicos em uma instituição filantrópica. O problema era relacionado aos pombos que haviam invadido o local. Fomos ao imóvel e notamos que de fato o problema era sério. Tratava-se de uma instituição que atende crianças portadoras de graves deficiências. Algumas faziam uso freqüente de medicamentos que tornam o sistema imunológico menos resistente. Para quem pesquisou sobre a Criptococose, deve saber que os imunodeprimidos são os mais vulneráveis. Mas a situação era muito mais grave. No prédio havia vários pontos onde os esgotos estavam abertos e muitos criadouros de mosquitos em lajes, calhas e recipientes.
Como já esclareci em postagens anteriores, quase todas as pragas urbanas e espécies da fauna sinantrópica são evitáveis com procedimentos de vedação e limpeza. Mesmo sendo uma edificação grande, com boa vontade, é possível gastar pouco dinheiro e resolver os problemas.
Depois de fazer toda a vistoria e os registros fotográficos necessários, tornamos a procurar a pessoa que havia solicitado o atendimento. Esclarecemos todas as situações existentes no local e informamos que faríamos um relatório e uma ficha de orientações. Questionamos então quem eram os responsáveis. Para nossa surpresa, era o “Vereador 2” .
O local estava muito ruim, inviável para a atividade a qual se propunha e, de acordo com pessoas que estavam no local, o “Vereador 2” estaria fazendo uso do prédio para reuniões de seu partido e pessoas do partido estariam fazendo uso dos telefones da instituição para fazer contatos com correligionários de vários outros municípios e estados. Haviam mesmo muitas listas telefônicas de várias localidades na Instituição.
Nosso problema no local relacionava-se tão somente com as questões de Saúde inerentes às condições precárias do imóvel. Obviamente que, apesar de ser comum, este tipo de situação envolvendo políticos chega a embrulhar o estômago.
No dia seguinte elaboramos o relatório citando os problemas e solicitando prazos para as adequações. Foi tudo dentro de normas razoavelmente aceitas pela Legislação. (Sempre se observam as condições das pessoas, os tipos de atividades ou os tipos de estabelecimentos para tentar ponderar as condições de resolução dos problemas). O problema é que os prazos não foram cumpridos e a fiscalização foi passada para outra equipe. Claro que o local está totalmente ... totalmente ... ( ... resolvi fazer suspense ... ) ... totalmente ... igual ou pior do que estava. O mais cruel é ver em outdoors que, vez ou outra, o “Vereador 2” divulga seu nome junto das campanhas beneficentes da instituição. Que absurdo!
Vamos ver mais umas imagens...
cozinha de lanchonete - local totalmente aberto (e famoso) |
marcas do acesso de ratos em açougue de mercado |
grelha de cozinha de restaurante |
Causo nº. 04
Certa vez... ainda novo na Vigilância, fui fazer uma vistoria num bar que há muito tempo não renovava seu alvará. Quando cheguei em frente ao local e vi as condições do lado de fora... já fiquei bastante preocupado. Entrei, aí piorou. Me apresentei a um senhor de uns 75 anos com a barba mal feita e a roupa encardida que estava atrás do balcão, fui ao banheiro lavar as mão e notei que não havia sabão, papel, toalha, higiene e nem água. Ainda assim, me paramentei na porta do banheiro cujos azulejos eram poucos ainda cimentados nas paredes. O cheiro de urina era forte e o vaso sanitário estava bem feio de ver. Enquanto me paramentava olhei para as prateleiras e só vi cachaça. Muitas garrafas empoeiradas de cachaças vagabundas. Sobre o balcão um pote com salsichas (esverdeadas) em conserva, alguns torresmos numa estufa e uma coxinha visivelmente murcha. O chão de todo o boteco estava sujo, cheio de papéis e tampas de garrafas. O forro era de madeira e, quando olhei melhor para cima, fiquei com medo que caísse sobre minha cabeça ou que alguma das aranhas pudesse me aprisionar em teias que deveriam ter mais de uma década ali. Pedi licença e fui para trás do balcão. Nas prateleiras do balcão havia muitos jornais velhos, pedaços de limão já espremidos, copos sujos, garrafas abertas, baratas, poeira e umas calabresas defumadas (que, com um limãozinho ficam uma delícia!).
Achei que não poderia piorar e cai na besteira de perguntar: “Quem fornece salgados e torresmos para o senhor?”. E ele respondeu: “Ninguém, faço tudo aqui mesmo.” Afirmei: “Mas aqui não tem cozinha.”. e ele disse: “Tem sim. A gente entra pela porta ao lado e tem um salão bem grande aqui atrás.”. Confesso que meu estômago gelou. Percebi que as coisas poderiam piorar...
Fomos ao tal salão. Era grande mesmo. Maior que todo o bar. Por todo lado haviam coisas quebradas, jogadas e muita poeira. Havia entulhos e muitos papéis e sacolas. Parte do forro já havia caído, aí deu pra ver que perigava do telhado todo vir abaixo. No meio disso tudo vi um fogão bem engordurado com umas panelas. Pensei comigo: “Só falta ser ali o preparo do torresmo!?”. Acho que ele leu meus anseios e disse: “É neste fogãozinho que preparo as coisas.”
Voltamos para o bar e eu nem sabia por onde começaria minhas orientações. Aquele senhor não tinha nenhuma noção de higiene e de Vigilância. Anos e anos fazendo daquele jeito.
Peguei um banco, puxei até o balcão, coloquei meu bloco de orientações sobre o balcão e comecei a escrever. Deve ter dado um punhado de itens com prazos bem variados, indo do imediato aos 6 meses. Expliquei tudo detalhadamente ao proprietário e disse que não haveria como renovar seu alvará sem que aquelas coisas fossem concluídas. Além dos itens relacionados à higiene e à proibição de manipular alimentos ali no estabelecimento, acabei pedindo reforma do telhado, do forro, do piso e dos azulejos, do banheiro, da pia... Ele me dizia: “Não sei se vai dar pra fazer tudo isso.”. Convidei-o a atravessar a rua e olhar para seu próprio estabelecimento. De frente para o bar eu perguntei: “Tá feio, num tá? Deve ser o bar mais feio da Cidade!”. Ele então sorriu e disse: “Vamos ver o que eu consigo fazer.”.
Nem quis conferir os itens de menor prazo, deixei tudo para 6 meses. Um belo dia, conferi minha agenda e vi que naquela semana venceria o prazo de 6 meses. Comecei a preparar o espírito para voltar ao local. Imaginei que muito pouco estaria feito e que infelizmente teria que tomar atitudes mais desagradáveis naquele estabelecimento. No dia em que o prazo venceu, reuni minhas forças e fui a pé e lentamente para o bar. Quando cheguei, já observei que o reboco da fachada estava reformado. Ainda assim fiquei desconfiado e esperando o pior. Subi os dois degraus e passei para dentro do bar. Olhei para o piso e vi um piso novo, simples, mas novo. Olhei para cima e vi que o forro havia sido trocado por um novinho de pvc. Olhei para o proprietário com entusiasmo e disse: “Pelo jeito o senhor fez tudo.”. E ele disse: “Não deu tempo de pintar. O prazo já venceu?”. Afirmei que sim, mas que não havia problema. Ele poderia concluir depois. Fui ao banheiro para lavar as mãos e tratava-se de um banheiro novo, todo azulejado e com tudo funcionando. A toalha de mão tava meio trash, mas, diante de tudo aquilo que eu via... isso não era nada.
O boteco estava bem mais organizado também. Ele removeu a poeira e todos os lixos e tralhas que só estavam atrapalhando. Até no salão dos fundos a reforma havia sido feita e o fogão era usado só para fazer café.
Minha alegria era tanta que agradeci ao proprietário por seu comportamento surpreendente. Tanto que quase deixei de observar alguns detalhes que nunca mais sairão de minha cabeça... Enquanto tirava o avental e a toca, olhei para cima do balcão e vi um pote com salsichas em conserva, iguais àquelas esverdeadas do começo deste causo. Tive a curiosidade de abrir e cheirar o pote. Fedia carniça misturada com vinagre, alho e cebola. Tava terrível. Pedi ao senhorzinho que cheirasse e saiu lágrima dos olhos dele, de tão ruim que estava aquele treco. Informei que tínhamos que jogar aquilo fora, por no lixo. Ele rapidamente agarrou o pote e foi para o banheiro. Não entendi, achei que fosse o único cesto de lixo disponível, mas não, era bem pior. Ele jogou todo o conteúdo do pote no vaso sanitário e começou a dar a descarga. As salsichas rodavam e rodavam dentro do vaso, mas não iam embora. Depois de algumas tentativas, ele se cansou e pegou com as duas mãos todas as salsichas que estavam no vaso sanitário e colocou-as de volta no pote. A cena era das mais bizarras e ainda iria ficar um pouco mais... De posse do pote o senhorzinho foi para a rua e colocou as salsichas no pé de uma árvore pra que os cães pudessem comer. Fiquei apenas olhando. Sem lavar as mãos ele veio em minha direção e disse: “Pronto agora tá tudo resolvido.”. E estendeu a mão para se despedir. Não tive como fugir dessa e dei a mão para ele. Ele pegou o pote vazio e colocou na pia do bar. Continuei apenas olhando e não resisti, tive de perguntar: “O senhor vai fazer mais salsichas?”. E ele disse: “Vou, daqui a pouco vou buscar mais, o pessoal gosta de tomar umas comendo alguma coisinha.” Então eu disse: “O senhor vai usar o mesmo pote?”. E ele respondeu: “Vou, mas pode ficar tranqüilo que vou lavar bem direitinho antes.” Expliquei mais algumas coisas, descartamos o pote e fui embora rindo sozinho...
gaiola suja em cozinha de boteco |
Nos causos que contei foram apontadas as participações lastimáveis de políticos tentando interferir em questões de fiscalização que colocavam em risco a Saúde da População.
De qual lado está esta gente? Tanto o proprietário de um estabelecimento que procura um político para ajuda-lo a burlar a lei quanto o político que se coloca a fazer tal papel estão prejudicando diretamente seus consumidores e eleitores respectivamente. Não seria papel de um vereador saber como andam as fiscalizações em seu Município e lutar para que as normas sejam cumpridas e as equipes tenham condições de trabalho? Afinal eles formulam as Leis e depois querem boicota-las!? Estranho!!!
Temos também os vereadores sempre citados por donos de terrenos, casas abandonadas, áreas invadidas e todo tipo de coisa danosa à População. São os “quebra multa” ou “quebra galho”. Se você está com seu imóvel ou estabelecimento limpo e não causando problemas à ninguém, você não precisa pedir favorzinhos. Agora, mais feio que pedir o favorzinho, principalmente se você está errado, é o político profissional fazer o favorzinho... é o fim da picada!!! (ou, se o favorecido for o dono de imóvel com criadouros de mosquito, é o começo da picada!!!).
Pelo que sei, os vereadores e os políticos profissionais “pendurados” nas Administrações Públicas deveriam primar pela população, mas nitidamente não é isso o que acontece. Os vereadores deveriam também fiscalizar o executivo, ou seja, a forma como um ou outro Governo estão fazendo as coisas. Quanto a isso, nem preciso me estender muito. O Prefeito manda, os vereadores aprovam... esta é a regra. Quem hoje parece ser contra... amanhã parece ser a favor. Vale tudo, desde que o pessoalzinho saia no lucro.
Infelizmente, em Araraquara, não bastasse a falta de produção e de importância efetiva dos vereadores em cumprir seus papéis, aumentaram o número de vereadores... e dizem que gastarão menos. Deve ser a tal “matemágica”. A “matemágica” é um tipo de matemática muito utilizada por políticos para esclarecer seus números bizarros para a População desatenta. Através da “matemágica” é possível justificar: os próprios aumentos de salários; as contratações de assessores; as viagens; os almoços; os contratos zilionários com empreiteiras e fornecedores... E quase todos os absurdos possíveis... inclusive os churrasquinhos e outras baladinhas picantes.
Pense bem antes de dar seu voto para qualquer malandro oportunista por aí e observe melhor as condições dos lugares que você freqüenta para comer ou para comprar seus alimentos. A População parece estar dormente diante do nível das pessoas que estão se elegendo para todos os cargos políticos. Não param para pensar se o candidato tem condições de trabalhar com Leis e com dinheiro público. Não dão à mínima para a forma como os favores políticos são pagos, para quanto isto custa e de onde as verbas são desviadas... Não importa se sai da merenda das crianças ou do remédio dos doentes... até quando?
Como disse na postagem anterior, há Leis que garantem ao consumidor conhecer os estabelecimentos que frequenta (sejam restaurantes, padarias, lanchonetes...). Permitir o acesso do consumidor às áreas de manipulação é obrigação. Há Leis também que obrigam as Vigilâncias a tornarem suas ações públicas, desta forma parte do que acontece é publicado em algum jornalzinho de circulação local, em letras pequenas, junto aos atos oficiais... para ninguém ler (e ver) mesmo. O que posso garantir, tendo como base minhas experiências profissionais, é que há bons lugares para se fazer uma boa refeição, porém são poucos os que mantêm um padrão razoável. O melhor, quando não for possível fazer o seu próprio rango, é buscar conhecer e prestar muita atenção nos locais que você costuma pedir sua comida ou fazer suas compras. Existem sérios riscos para a sua saúde e para a saúde da sua família em locais que não cuidam da higiene e dos procedimentos de manipulação de alimentos. Tome cuidado e seja exigente. No caso de dúvidas consulte a Vigilância Sanitária de seu Município ou denuncie diretamente aos órgãos de defesa do consumidor (PROCON / CODECON). Se você se sentir prejudicado ou lesado, ações podem ser revertidas em indenizações e os responsáveis podem responder civil e criminalmente por crime contra o consumidor.
gaveta de pista quente de alimento além do veneno, há fezes de ratos e baratas |
badeja de salgados segundo os funcionários não havia outro lugar para coloca-los... |
bancada de fábrica clandestina de torresmos e pururucas |
torresmo grudado em parede atrás da fritadeira local bom para gravação de episódio dos jogos mortais... |
Para consultar a Legislação ou buscar mais detalhes: