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quinta-feira, 7 de abril de 2011

fichas, roteiros e manuais


IMPORTANTE: Todo o texto foi elaborado por mim tendo por base minhas experiências profissionais na área de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente. Os registros fotográficos também são de minha autoria. Quando houverem informações ou imagens de outras fontes, elas serão mencionadas. Não me oponho ao uso deste material parcialmente ou na integra para fins educativos ou para a confecção de trabalhos escolares, porém, por uma questão de respeito, peço que qualquer imagem ou trecho de textos retirados deste Blog mencionem o link:


Obrigado.



     Nesta postagem disponibilizarei alguns modelos de formulários e documentos importantes para o bom andamento das atividades de Vigilância em Saúde. São documentos .pdf muito úteis para Municípios que estão buscando aprimorar as atividades de fiscalização.Vários links recomendados ao lado direito das postagens levam à legislações e manuais oficiais, o que também pode nortear a aplicação de cada impresso disponibilizado nesta postagem. Coloco-me à disposição para eventuais dúvidas e esclarecimentos quanto à forma de utilização dos papéis, porém, devo ressaltar que o principal da atividade consiste em atenção e vontade individual de executar uma boa vistoria, sendo assim, os papéis são apenas o complemento burocrático para um trabalho de fiscalização pautado sobretudo em educação.

     Para os proprietários e responsáveis pelos estabelecimentos comerciais e industriais que produzem alimentos, a ficha de inspeção disponibilizada serve como um "check list", ou seja, se o estabelecimento estiver de acordo com os itens abordados nesta ficha, dificilmente terá problemas com os consumidores, com a Vigilância e com sua própria imagem...

     É importante que a população conheça minimamente seus direitos. Cabe aí então, saber quais as exigências e as normas para que um estabelecimento esteja de acordo com a Vigilância e com as Boas Práticas na Manipulação de Alimentos. Já para os profissionais da área de Vigilância em Saúde, trata-se de obrigação estar atualizado com as Leis, saber aplica-las e saber ponderar cada situação. Daí a importância da capacitação contínua e da dedicação de cada agente envolvido no processo.

     Por se tratarem de "modelos", cada Município ou Secretaria deve analisar as possibilidades e adequações no uso destes documentos.


modelo de ficha de inspeção para manipuladoras de alimentos
modelo de termo de orientações
modelo de auto de infração
modelo de termo de intimação
modelo de folha para despachos


     Na próxima semana, com a ajuda de alguns amigos, tentarei produzir uma vídeo reportagem abordando temas importantes relacionados à saúde, meio ambiente, saneamento, sociedade e políticas públicas. Aguardem...


Antes de me despedir, uma coleção de links sobre a situação da Dengue em Araraquara e Região...


http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2011/03/28/mulher-morre-com-suspeita-de-dengue-em-araraquara-sp-924113579.asp

http://g1.globo.com/luta-contra-a-dengue/noticia/2011/02/araraquara-registra-mais-de-40-casos-de-dengue-em-24-horas.html

http://www.saocarlosagora.com.br/regiao/noticia/2011/03/29/16355/araraquara-confirma-520-casos-de-dengue/

http://eptv.globo.com/noticias/NOT,3,7,343003,Cidades+intensificam+acoes+de+combate+ao+mosquito+da+dengue.aspx

http://videos.araraquara.com/videos/803/chapa-quente-8-dengue

http://videos.araraquara.com/videos/1472/combate-faro-fino-x-dengue

Obrigado e até a próxima....

quinta-feira, 17 de março de 2011

As pessoas que ninguém quer ver (parte 2) (e um suposto problema numa suposta Cidade)

     Antes de iniciar esta postagem preciso comentar algo. É absurda a forma como as coisas são facilmente deturpadas e manipuladas. Basta alguém dizer algo de forma levemente tendenciosa ou leviana para um detalhe virar caso... uma virgula virar ponto de exclamação! Uma mentira virar verdade. Para exemplificar isso farei uma série de suposições e, assim como nas novelas, qualquer semelhança com a vida real ou com fatos e pessoas é mera coincidência...


manifestação de estudantes em frente à Câmara de Araraquara
     Suponha que numa Cidade com cerca de 200.000 Habitantes, pelo ano consecutivo, os casos de Dengue sejam elevados, chegando em 3 dos 4 anos à níveis de epidemia. Suponha também que, apesar de muito bem cotada nos institutos que supostamente medem os índices de desenvolvimentos social, econômico, humano e ambiental, esta Cidade (supositória, é lógico) possui inúmeros supostos problemas de saneamento, de saúde pública, de transporte, de educação, de meio ambiente.... Como qualquer Cidade moderna. Suponha ainda que parte destes problemas seja supostamente desprezada (e mascarada) pelo poder público e principalmente por aqueles que deveriam elaborar as supostas “políticas públicas”. Teremos que continuar supondo... Então, suponha que nesta Cidade supositória existam criadouros em quase todos os imóveis. Do terreno sujo à casa bem cuidadinha da vovó... pra todo lado que se olha se vêem pessoas que não estão nem aí... ninguém cuida da própria casa e alguns, além disso, ainda jogam lixo no chão, entulho nos terrenos, lixo e esgoto nos bueiros e botam fogo no mato... Os supostos vereadores(as) e políticos(as) profissionais desta suposta Cidade estão muito supostamente ocupados em aumentar os próprios salários e aumentar o número de pessoas supostamente mamando no Estado, desta suposta forma fica difícil acompanhar as reais demandas desta suposta População, ainda assim, alguns poucos supostos vereadores e vereadoras tentam fazer um suposto trabalho de suposta contestação e argumentação mais próximos da suposta realidade. E suponho que estas coisas (oposições e situações) mudem muito de lado de um governo para outro. Nesta Cidade, como em qualquer outra que você possa estar supondo, há funcionários públicos. Como em qualquer lugar, seja no meio público ou no privado, há gente trabalhadora e honesta e há aqueles que sejam, vamos dizer, supostamente “folgados”. Sempre há o supostamente “puxa saco” e sempre há supostas injustiças. Sendo assim, suponhamos que uma parte dos funcionários responsáveis pelo controle da Dengue desta Cidade, em determinado momento, tenha supostamente deixado de cumprir suas supostas obrigações. Cada um pelos seus supostos motivos, justos para alguns, falhos para outros, alguns dentro da lei, outros fora dela. De qualquer forma eles até tinham alguns supostos motivos: supostamente não recebiam a insalubridade; supostamente ao fazer arrastões nos finais de semana recebiam supostamente muito menos que os supostos funcionários das supostas terceirizadas (e para trabalhar supostamente mais); o prédio onde eles supostamente trabalham é uma suposta vergonha; o salário é supostamente pouco; o desgaste físico e emocional é supostamente grande; o representante político deste suposto local não dá o suposto exemplo... mesmo supostamente assim, responsabilidade é supostamente responsabilidade. Tenho que lembrar que são meramente suposições. Suponha que por algum motivo dentre os poucos funcionários que não levam supostamente muito à sério seu suposto trabalho, alguns cometeram algum suposto erro ou agiram de forma supostamente equivocada. Nesta suposição, suponhamos que sejam abertos alguns processos administrativos (diferentes do meu) para apurar supostos fatos como: suposta falta não justificada em arrastão da suposta Dengue; supostos atrasos na entrada em serviço (isso já é supostamente descontado do suposto pagamento); deixar de supostamente executar tarefas cotidianas ou executa-las de forma supostamente faltosa... Enfim, supondo serem estes motivos adequados para abertura de supostos processos ou sindicâncias, e não discordo disso, levando-se em conta que em alguns casos a ausência possui supostamente justificativa legalmente correta e que o(a) supostamente acusado(a) pode estar sendo vítima de um suposto erro ou injustiça, ainda assim é muito inimaginável supor que um governo teria coragem de dizer que isso ... estes poucos e importantes servidores públicos ... seriam os supostos responsáveis por uma nova suposta epidemia. Porém, mesmo antes das apurações efetuadas, os casos de Dengue começaram a supostamente pipocar por todos os lados... a População sendo supostamente “comida” por mosquitos de dia e de noite... a zeladoria desta Cidade estaria supostamente precária... a População estaria supostamente vendo mato, lixo, entulho, mato, lixo, entulho e buracos... a relação entre o suposto poder público e seus supostos subordinados estaria supostamente desgastada graças a supostas perseguições e falas supostamente agressivas e equivocadas na imprensa... Como explicar outra suposta epidemia? Não dava para supostamente evita-la? Como anda o lado jurídico do Sistema de Vigilância desta suposta Cidade? Os Fiscais receberam capacitação jurídica para trabalhar com supostas Leis? Se, supostamente, não, qual o suposto motivo? (seria não aplicar a suposta Lei?...). E as condições de trabalho destes supostos funcionários? Atende ao que supostamente rege a CLT? Os supostos responsáveis pelas irregularidades, mesmo quando são os mesmos supostos palhaços de sempre, são autuados? Mesmo sendo supostos empresários e comerciantes? As autuações viram supostas multas? Viram mesmo? O cara paga? Tem certeza? Olha!!! Sei não hein... Para a maioria das pessoas o problema da Dengue nesta Cidade supositória seria causado por uma série de fatores. Mas, para o bom suposto político profissional, tirar o suposto fiofó da suposta reta é uma grande habilidade... chega ser um DOM! No lugar de compreender a situação e se elaborar um plano para médio e longo prazo; se construir uma sede adequada para as supostas atividades de Vigilância em Saúde (e são muitas); se valorizar os supostos profissionais envolvidos nas atividades; de buscar engajamento com os outros setores supostamente envolvidos... no lugar disso tudo, nesta Cidade que estamos supondo, escolheram outro caminho. Escolheram 12 supostos funcionários e tentam supostamente apontar para eles a causa da suposta epidemia de Dengue dentro da sua suposta casa, dentro dos bueiros do seu suposto bairro, dentro das supostas creches com crianças e funcionárias(os), postos de saúde e escolas, dentro dos supermercados e supostas lojas de roupas, dentro dos supostos ferros velhos, dentro das supostas indústrias e dos shoppings... querem supostamente dizer que é por causa de uma dúzia de supostas pessoas que teremos uma suposta epidemia, gente supostamente sofrendo, gente correndo risco de supostamente morrer... entendi. Essa foi muito supostamente boa mesmo... supostamente sensacional. Agora, nesta Cidade onde supostamente isso foi supostamente tramado, os supostos funcionários, que já não eram bem recebidos por uma larga parcela desta suposta População, serão supostamente taxados de vagabundos, incompetentes e outros palavrões. Genial a estratégia. Todos acreditarão que a culpa é supostamente destes funcionários supostamente acusados. Desta forma, quem supostamente ganha R$4.000,00 para supostamente resolver a equação da Dengue (e supostamente não entende nada disso e não participa do trabalho cotidiano) e  os responsáveis pela suposta Saúde e pela suposta Administração deste suposto Município se isentam das supostas críticas e cobranças. Supostamente lindo!!! Comovente!!! Destroem e brincam com as supostas vidas de algumas supostas pessoas, jogam supostamente sujo, supostamente mentem, supostamente escondem problemas, supostamente distribuem cargos, horas extras e vantagens, supostamente fazem mau uso dos recursos, supostamente desrespeitam a CLT, supostamente não resolvem os problemas de suas supostas alçadas e supostamente querem culpar o(a) suposto(a) trabalhador(a) da suposta base... o que já é o mais supostamente pisado e explorado. Era só o que supostamente faltava. Ainda bem que são só suposições... Supostamente atribuíram culpa à População e a alguns poucos funcionários. Supostamente pergunto eu: As escolhas políticas, a atenção e o direcionamento dado aos supostos problemas desta suposta Cidade foram eficientes? Deram resultado ou foram e estão sendo um suposto fracasso? Se teve um ano de suposta estabilidade, de quem foi o trabalho supostamente realizado? Qual o resultado até agora do suposto trabalho prestado por este suposto governo? Perguntas supostamente difíceis de responder...

Comentário final sobre este assunto:

     Você sabe quem paga as indenizações trabalhistas quando um funcionário de uma prefeitura qualquer passa por assédio moral, perseguições e ilegalidades? Você. É isso mesmo. Toda vez que representantes de administrações públicas cometem com seus funcionários atos entendidos pela Justiça como indenizáveis, você paga a conta. São processos de R$30.000,00, R$50.000,00, R$100.000,00... (e não são poucos). A perseguição e as ilegalidades foram praticadas por um grupo de pessoas ou por uma pessoa só, porém a conta é nossa. Que legal! Sendo assim, o administrador público pode fazer qualquer cagada com seus subordinados que tudo bem, se o cara botar no pau, o Povo paga. Pra que um político vai se preocupar em respeitar a Lei ao perseguir seus opositores? Ele é o Poder e o custo dos seus erros passam para o poder dos outros... Maravilha. Creio que isto precise mudar urgentemente!!! Esta conta não pode mais ser do Povo!!!

Essa tava intalada mesmo... Desculpem.
(minha 1ª postagem dá um bom exemplo de perseguição)

Curiosidade: Numa greve onde 2 dos quase 150 funcionários da Vigilância de Araraquara haviam aderido, um Juiz achou de suma importância que estes 2 voltassem ao trabalho para que todos os esforços fossem usados contra a Dengue. Pois bem. Eu era 1 dos 2 importantes servidores, mas agora, mesmo com a coisa pegando fogo, mesmo sem um motivo real, querem que eu fique em casa escrevendo, lavando louça e cozinhando... tudo porque algum “perito” me considerou “perigoso” no meu ambiente de trabalho. Meu processo é por ter falado coisas que um monte de gente já falava e fala abertamente. Desabafei e dancei. Ok! Não me importaria de estar trabalhando, pelo contrário, minha esposa é linha dura, tenho que manter tudo arrumadinho em casa, além disso tenho que limpar a calha, podar a árvore, cortar a grama, limpar a caixa d`água, fazer uns serviços de pedreiro, arrumar a antena, trocar umas telhas quebradas.....


IMPORTANTE: Todo o texto foi elaborado por mim tendo por base minhas experiências profissionais na área de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente. Os registros fotográficos também são de minha autoria. Quando houverem informações ou imagens de outras fontes, elas serão mencionadas. Não me oponho ao uso deste material parcialmente ou na integra para fins educativos ou para a confecção de trabalhos escolares, porém, por uma questão de respeito, peço que qualquer imagem ou trecho de textos retirados deste Blog mencionem o link:


Obrigado.

     Voltando ao tema que me coloquei a trabalhar numa série de postagens, descreverei 2 casos muito diferentes e emocionantes. Sempre tento descrever com os detalhes que guardei em minha memória as coisas que tenho postado. Algumas cenas que vi eram tão impressionantes que ficaram em minha mente como se fossem fotos. Não sei se assim como as fotos elas desbotarão com o tempo... nem tampouco se se apagarão, o que sei é que de alguma forma, os fatos que relato me marcaram muito e sempre me fazem pensar na vida... no que espero dela... no quanto tenho para oferecer... no quanto realmente ofereço... e sempre, sempre mesmo, fico incomodado. Deve ser isto que me faz ir adiante...

Caso da Ângela

     Para iniciar devo dizer que o nome da Ângela não é Ângela. Não é meu objetivo expor pessoas ou lugares, apenas fatos e memórias.

     Certa vez, recebemos uma ocorrência com forte conotação de problema social. Quando digo isso tenho franco conhecimento que questões sociais, ambientais e de saúde andam sempre ou quase sempre juntas. O que me dava esta certeza era o relato da pessoa que fez a notificação: Casa com ratos (pequenos e grandes) onde mora uma moça usuária de drogas com um recém nascido, um senhor de idade e dois adolescentes. Sempre temos o hábito de fazer contato pessoalmente com quem pede o atendimento. Isso facilita a compreensão dos fatos e evita que o fiscal entre em “brigas de vizinhos”, o que é muito comum também. Procuramos a Notificante. Era uma senhora negra meio gordinha com cerca de 60 ou 65 anos. Tratava-se de pessoa muito bem esclarecida e super simpática e agradável. Sua casa estava impecável. Ela disse ter visto e ouvido ratos no local, mas nós não encontramos fezes de roedores (rato não gosta de lugar limpo e arrumadinho, em lugares assim não há restos de comida. Quem gosta de bagunça e sujeira é o ser humano. O rato gosta é de comida!) Ela explicou que seu imóvel era desmembrado de forma que eram três residências distintas. Nos fundos vivia uma rapaziada jovem entre 19 e 25 anos. Tinha uns pitbulls e muitas fezes enormes de pitbulls pelo quintal. Do pouco tempo que ficamos lá deu pra sacar que era uma boca de fumo. Explicamos sobre a limpeza do quintal, sobre a forma de manter as rações e fomos para a rua. A Notificante contou que a moça que morava na casa ao lado da dela era usuária de crack, para agravar tinha um bebê com cerca de 6 meses com ela. Havia ainda um Senhor que, segundo ela, era “esclerosado”, e só estaria naquela casa por causa do seu cartão do benefício social. Além disso um casal de adolescentes teria se “juntado” e estaria morando ali também. Preparamos nossos sentidos e nossas almas e fomos ao portão da casa para chamar pelos moradores. A Notificante nos acompanhou. Chamamos... chamamos... chamamos... e, mesmo com o portão entreaberto e sem porta na sala, mesmo vendo que havia alguém lá dentro... ninguém saía. O padrão seria: “vamos embora”. Mas somos chatos e resolvemos pedir para a Notificante que nos acompanhasse para que tivéssemos uma testemunha de nossa vistoria. Empurramos o portão, demos alguns passos e vimos um armário de cozinha de frente para a porta de entrada, como se ele quisesse sair de lá. Não sei como meu parceiro (o grande Marcelão Castageni – meu mestre) viu o que vou narrar, mas eu vi a seguinte cena:

     Num sofá todo rasgado e sujo colocado no fundo de uma pequena sala conjugada com uma cozinha estava uma mulher com um bebê no colo. Ela estava amamentando, sendo assim, não olhei atentamente num primeiro momento, fiquei constrangido. Me atentei para as condições do lugar. Mas olhei novamente para entender melhor aquele quadro, afinal, eu estava lá para ver as pessoas. Quando prestei atenção não pude acreditar. A criança estava envolta em um dos braços da mulher enquanto mamava. Com a mão deste braço a mãe segurava uma lata furada onde estava uma pedra de crack. Na outra mão ela tinha um isqueiro. Enquanto seu pequeno e franzino filho lutava para sugar seu seio, uma mulher com menos de 30 anos, mas muito magra e debilitada, ela lutava para sugar a fumaça que saía da lata. Fiquei congelado. Normalmente só vemos estas coisas pela TV. Na TV não tem cheiro, não tem contato, não tem o mesmo peso. Ao lado havia uma porta que dava acesso a um dormitório. De onde estava olhei lá para dentro e vi um senhor negro com cabelo e barba bem grisalha sentado numa cama. Ele segurava um livro e ficava olhando o livro, murmurando e balançando o corpo para frente e para trás... para frente e para trás... O cheiro do imóvel era muito forte. Predominava o odor de urina humana e de roedores. Dei uma olhada no armário que vimos da entrada e estava forrado de fezes de roedores. A cozinha estava muito suja. Andei em direção ao dormitório e perguntei o nome daquele senhor. Ele continuou balançando e olhando o livro. Perguntei o que ele estava lendo. E ele continuou balançando e olhando o livro. O quarto estava imundo e fedia muito, de arder os olhos. Um amontoado de colchões e roupas, além do lixo, é claro. Da porta, olhei melhor aquele homem. Era um senhor que aparentava uns 75 anos. Ele estava magro e com a roupa bem suja. Tentei ver o que ele estava lendo e vi que era a Bíblia Sagrada, porém ela estava de cabeça para baixo, sendo assim, deduzi que ele não sabia ler. Notei também que ele apenas murmurava, mas não dizia nada. Ele não parou de balançar. Tentamos estabelecer contato com a mulher que estava com a criança e com a lata. Ela só dizia, repetidas vezes: sim senhor... sim senhor... Percebemos que não havia nada a fazer naquela hora, estava impossível. Até tentamos, mas não dava. Enquanto eu tentava entender aquilo tudo e pensava numa estratégia, o Marcelão vistoriou o imóvel, que estava muito precário.

     Saímos de lá desolados. Certas vezes, quando deixamos um lugar como este, mantemos o silêncio por alguns minutos. Talvez na esperança de ouvir de dentro de nós alguma solução... Depois de alguns instantes, começamos a avaliar possibilidades de ação e na hora pensamos: vamos ao Conselho Tutelar, pelo menos aquela criança a gente já tenta salvar já. Fomos e agendamos uma vistoria conjunta para o dia seguinte. O Conselheiro se mostrou muito prestativo e preocupado. Fomos ao local e desta vez estava apenas o Senhor e os dois adolescentes (um rapaz de 17 e uma menina de 15). Como fomos pela manhã, todos estavam deitados e foram acordados por nossa visita. Perguntamos imediatamente pela Ângela e pelo bebê. Os adolescentes disseram que ela havia ido ao Posto de Saúde com a criança para buscar leite. Resolvemos aguardar um pouco. Neste tempo, o Conselheiro Tutelar conversou bastante com os adolescentes, anotou informações, deu broncas... Passados uns 15 minutos, fomos ao Posto na intenção de encontrar a Ângela. Porém, algumas vizinhas disseram que quando ela viu nossas viaturas ela fugiu. Mais uma vez, poderíamos dizer: “agora é com o Conselho”. Mas somos chatos. Desta forma marcamos nova tentativa em conjunto. Fomos ao local na hora combinada. Depois de 30 minutos de espera, resolvemos ligar para o Conselheiro (a cobrar, já que não tínhamos crédito). Ele atendeu e disse que não poderia ir ao local. Segundo ele um assunto foi mencionado na imprensa e ele tinha que dar esclarecimentos urgentes. Fomos sozinhos ao imóvel para saber da Ângela e do bebê. Fomos informados que todos haviam fugido da casa e ninguém sabia para onde...

     Não sei se era a Bíblia que estava de cabeça para baixo nas mãos daquele pobre senhor... acho que era o Mundo que estava...

Caso da Dona Tereza

     A denúncia apontava para uma casa onde, segundo a Notificante, viveria uma senhora de idade no meio do lixo. Mais uma vez, a questão social e a questão do idoso. Como de costume, procurei pela Notificante. Por cima do muro de divisa via-se um quintal com mato alto e coisas jogadas, mas principalmente o mato. A Notificante e várias pessoas da vizinhança se aproximaram para participar da conversa, o que é ótimo para fazer trabalhos educativos espontâneos. Na conversa todos diziam num mesmo coro: “vem um monte de gente aqui, ninguém entra. Ela corre atrás com o cabo de vassoura. Ela finge que não está em casa. Ele só come quando algum vizinho leva comida. Ela se perde pela rua. Ela leva um monte de lixo pra casa. Ela esquece das coisas... (Meu avô teve Mal de Alzheimer, sei o que é). Tivemos conversas francas e sempre comento com a População das dificuldades de se resolver alguns casos. Fui até a casa e passei a chamar. As vizinhas diziam que ela estava em casa, mas que certamente não atenderia. Tentei... chamei pelo nome... nada. No meio das conversas alguém disse que a única coisa que a Dona Tereza adorava e falava sempre bem era do prefeito da Cidade. Segundo os vizinhos era devoção. Pode parecer cruel, mas tive uma idéia com isso. Como a Dona Tereza não atendeu, tive que ir embora para fazer novas tentativas em outras oportunidades. Em uma das tentativas, chegamos praticamente juntos ao portão. Eu a chamei pelo nome e estendi a mão. Ela olhou para mim com lindos olhos claros e perguntou: “Quem é você? O que você quer?” Não tive dúvida, disse na mesma hora, com clareza e convicção: “Sou o prefeito Dona Tereza!” Ela olhou... olhou... Acho até que desconfiou, mas abriu um sorriso e me deu um abraço. Segurou firme minha mão e perguntou: “No que é que eu posso ajudar o senhor?” Respondi: “Fiquei sabendo que a Senhora está passando algumas dificuldades em sua casa. Me falaram que a Senhora precisava de ajuda e eu vim dar uma olhada. Se for verdade vou pedir pessoalmente para vir um monte de gente boa aqui pra ajudar a Senhora. Só que pra saber pra onde eu mando os pedidos eu queria dar uma olhadinha na casa da Senhora.” Ela relutou. Disse que não estava preparada, mesmo assim me conduziu até à garagem (o que já era um grande avanço). Dali já se sentia um cheiro confuso de urina, gordura, fezes, baratas, bolor... e era possível ver que no meio do mato havia coelho, ou melhor criadouros. Dei uma boa andada pelo quintal retirando criadouros e focos de mosquitos. Mesmo com sua devoção pelo prefeito, ela não me deixou entrar na casa.
garagem
     Recorri a alguém que, de tão “louco”, sempre consegue estabelecer contato com os “loucos”. Nesta época, eu e meu atual parceiro de trabalho trabalhávamos em áreas diferentes da Vigilância. Solicitei uma vistoria conjunta e fomos nós. Como eu já esperava, ele rapidamente conseguiu convencer, nem me lembro como, a Dona Tereza a permitir que olhássemos e fotografássemos o interior da residência. Aí, bem, a partir daí conheci um mundo diferente. O mundo da Dona Tereza.

     Dentro de todo o imóvel estavam armazenadas sacolas e sacolas com todo tipo de coisas dentro. Aparentemente era lixo, mas no geral eram recicláveis. Peguei algumas coisas. Escolhi um saco com garrafas de amaciantes. Todas as garrafas estavam cheias de água. Muitas outras garrafas de muitas outras coisas estavam cheias de água. Para transitar de um lugar para outro, só em estreitos corredores entre sacolas e coisas empilhadas. Na cozinha, inúmeros recipientes com água e larvas de mosquitos. Abri a geladeira e tomei um susto. Ratos e baratas corriam de um lado para outro. A geladeira estava desligada, ainda assim, armazenava alguns alimentos. O banheiro não tinha chuveiro e, pela poeira, aparentava não ser muito visitado. No vaso sanitário a água estava baixa e com larvas de mosquitos. No quarto, um pouco mais de organização, apesar de todo o caos, mesmo assim, era o local mais agradável da casa. No quintal, havia esgoto aberto, muitos criadouros ainda e o mato. Percebi que ela não havia se lembrado de mim. Desta forma, qualquer tentativa de orientação ficaria literalmente no esquecimento.
sala
sala
corredor
cozinha
refrigerador
dormitório
     Quando saímos os vizinhos nos rodearam e começaram a conversar. Nesta conversa alguns familiares da Dona Tereza foram apontados e conseguimos conversar com eles. Não foi muito fácil, mas a família conseguiu tirar a Dona Tereza da casa por 1 dia. Foi o suficiente para que 3 fiscais (eu, Marcelão e Luis Fernando) e 2 motoristas (Sr. Clésio e o finado Sr. João), juntamente com 3 familiares da Dona Tereza removessem quase 5 toneladas de lixo. A quantidade de ratos que se matava só de se andar sem olhar para o chão era impressionante. Centenas de camundongos viviam ali. Dezenas de focos de mosquitos. Centenas de baratas... Quase tudo foi jogado fora. No meio das coisas penicos (e com brinde surpresa). A vizinhança colaborou fazendo lanches e servindo café e refrigerantes para nós que executávamos o trabalho. No início da manhã, cerca de 2 toneladas já haviam sido jogadas para cima de um caminhão por dois moradores, o motorista (respeitadíssimo e muito admirado por mim - Sr. Clésio) eu e o Marcelão.

     Num caso assim, a limpeza garante um pouco a situação para a vizinhança e melhora um pouquinho para o morador, por outro lado, com a volta da pessoa para o imóvel, além do choque que ela terá ao ver seu mundo todo transformado, não é difícil imaginar que não tardará a acontecer tudo novamente. A participação da família é crucial. Nunca podemos julgar. As vezes algumas pessoas buscam com seus erros caminhos tortuosos. No caso da Dona Tereza a família não era negligente, era desinformada sobre a doença da Dona Tereza e sobre os procedimentos legais em casos assim. Algum tempo depois da limpeza, os familiares tiveram que comparecer ao Fórum para definir a situação da Dona Tereza, fatos que transcorreram de forma positiva. Porém, antes disso, fizemos uma visita de rotina no imóvel. A Dona Tereza não estava e segundo os vizinhos estaria muito debilitada e internada. Fizemos alguns contatos e tivemos notícias de que ela estaria no Pronto Socorro Municipal, onde teria dado entrada prostrada e desnutrida. Fomos para lá para ter notícias. Nos informaram que dois dias antes ela teria dado entrada na Santa Casa de Misericórdia em situação muito grave. Fomos ao hospital e perguntamos pela Dona Tereza. Uma enfermeira nos apontou o caminho. Entramos nos corredores tristes da Santa Casa, descemos por rampas e entramos num corredor que estava sendo parcialmente reformado. Era quase final de nosso dia de trabalho e de nossa suada semana. Andamos lentamente pelo corredor. Mantínhamos o silêncio e olhávamos para dentro dos leitos. Pessoas deitadas, caras de dor, de medo... Num dos quartos, já perto do final do corredor, cuja porta mais próxima dá para a saída dos carros funerários, estava a Dona Tereza. Sozinha e magra, muito magra, a Dona Tereza estava apenas com aquelas roupas de hospital, de forma que suas costas estavam aparentes. Via-se a coluna cervical daquela mulher. Visivelmente desnutrida, a Dona Tereza estava sentada na cama, amarrada pelos pulsos e tornozelos com faixas de curativos. Um soro estava conectado ao seu braço. Seus cabelos brancos e longos estavam soltos e bagunçados. Ela olhava fixamente para a parede à sua frente, balançava o corpo para frente e para trás e dizia quase sussurradamente: “Me ajuda... me ajuda... me ajuda...” Fiquei uns 5 minutos olhando a cena que não se alterava... balançava o corpo para frente e para trás e dizia: “Me ajuda... me ajuda... me ajuda...” Sai de lá, arrasado. Piquei meu ponto, peguei minha bicicleta e fui para minha casa. Tomei um banho e, ao tentar contar este triste caso para minha esposa, chorei como quem perde um amor... Imaginei se poderia chegar àquele ponto. Tive medo. Imaginei que ela ainda poderia estar lá... daquele mesmo jeito e que talvez ninguém fosse vê-la naquele final de tarde e nem durante toda a noite e nem no final de semana. Que ela estava sozinha e deveria estar morrendo de medo... de sair pela porta dos fundos daquele corredor...

     Hoje, pela última informação que tive, a Dona Tereza vive bem com um dos filhos em São Paulo.

     Naquele pequeno pedaço da Cidade, alguns poucos moradores viram que é possível fazer algo mais e demonstraram admiração por isto...

     Na semana que vem uma postagem sobre saneamento, meio ambiente e saúde...

Obrigado e até a próxima....

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

“O que os olhos não vêem, o estômago não sente?” (e outros Causos)


vai um pãozinho aí?


IMPORTANTE: Todo o texto foi elaborado por mim tendo por base minhas experiências profissionais na área de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente. Os registros fotográficos também são de minha autoria. Quando houverem informações ou imagens de outras fontes, elas serão mencionadas. Não me oponho ao uso deste material parcialmente ou na integra para fins educativos ou para a confecção de trabalhos escolares, porém, por uma questão de respeito, peço que qualquer imagem ou trecho de textos retirados deste Blog mencionem o link:


Obrigado.


balcão de cozinha de restaurante de comida caseira
     Com a correria da vida cotidiana é cada vez mais freqüente que as pessoas não tenham tempo de cuidar do próprio alimento. Homens e mulheres levam uma vida cada vez mais cheia de tarefas. Além do trabalho (ou dos trabalhos), que tem por finalidade garantir a todos os meios para fazer parte deste mundo de consumo, novas tarefas roubam o tempo necessário para atividades como cozinhar, limpar a casa, etc.... Uma, duas, três... várias vezes por semana recorremos ao alimento feito em estabelecimentos comerciais dos mais variados ramos de atividade ou compramos coisas semi prontas e congeladas. É quase unânime que alguns temperos e conservantes utilizados nos alimentos nos causam enjôos, uma louca vontade de beber água, inchaço e é difícil manter o mesmo fornecedor por muito tempo. Mesmo nos lugares que afirmam fazer coisas naturais, light, diet e caseiras, usam-se muitos temperos prontos e coisas industrializadas.

máquina de dividir massa de pão
     Não bastasse isso, temos também que nos preocupar com as condições de higiene nas quais os alimentos que comemos são armazenados, preparados, servidos e consumidos. Pouca gente dá importância a isso. É estranho, mas já estive participando de interdições de estabelecimentos em que, mesmo vendo toda a falta de higiene que estávamos encontrando no local, alguns consumidores pediam: “dá mais um salgado deste”. E olha que era filme de terror – ratos ... baratas ... coisas vencidas ... muita sujeira!

     Não é hábito do brasileiro exigir seus direitos. Além disso, temos uma população que foi educada a olhar um político desviando dinheiro e se conformar dizendo: “todos eles roba, é assim memo, faze o que?”. Dentro deste quadro, poucos são os que se preocupam com as coisas que refletem em suas próprias vidas. E nisso incluo a alimentação. Quando entramos em alguns estabelecimentos como: restaurantes, lanchonetes, pizzarias, açougues, padarias, quitandas... bares... de cara já é possível notar se o local está bem cuidado ou não. Lugares sujos não conseguem disfarçar muito a sujeira, basta estarmos atentos. Em alguns restaurantes, a cor da porta que dá acesso à cozinha já pode dizer muito sobre o lugar. O chão, as paredes, o teto, a iluminação, os uniformes dos funcionários e, principalmente, o cheiro de alguns estabelecimentos desmascaram qualquer fachada cheia de coisas brilhantes, cromadas e sedutoras. Cheiros que sinto com freqüência são: cheiro de ratos, cheiro de baratas, cheiro de venenos, de esgoto e de coisas podres. E não é raro. Antes de escrever esta postagem, passei em 4 supermercados da Cidade para gastar meu mísero ticket. Observei em todos eles vários problemas. Os principais eram: falta de higiene e produtos expostos de forma inadequada (sem identificação ou fora de temperatura).
lixeira de cozinha de restaurante
reparem na quantidade de bigatos
     Falta de higiene é moleza de ver. Dê uma agachada e olhe por baixo das prateleiras, gôndolas e equipamentos... normalmente tem de tudo. Quanto aos cheiros... só sentindo mesmo. Agora, quanto aos produtos, fique atento. Coisas sem rótulos, fora de temperatura, vencidas... tudo isso é quase regra em todos os estabelecimentos de todos os lugares do Brasil em que já estive.
sujeira atrás de equipamento em lanchonete
fezes de ratos e baratas
     Pela Legislação brasileira, os produtos de interesse à Saúde devem possuir informações obrigatórias. São coisas como: nome do fabricante; endereço; CNPJ ou outro registro válido; se forem produtos de origem animal devem possuir carimbo de inspeção – SIF, por exemplo; modo de conservação, incluindo temperatura e condições de armazenamento e; data de validade... entre outros itens.
vai um churrasquinho aí?
     Quase todos os produtos com ingredientes de origem animal devem ficar refrigerados ou em estufa (aquecidos). As temperaturas necessárias variam de acordo com o produto. Para alimentos quentes, o ideal é uma temperatura acima dos 70ºC. Já os que necessitam de refrigeração podem exigir -18ºC para os congelados, 0ºC à 5ºC para um bacalhau salgado (pode prestar atenção na próxima compra. Nada de temperatura ambiente. Se o bacalhau estiver levemente rosado, passe longe) ou até 16ºC, como é o caso das margarinas.
moedor instalado em área externa de padaria
acessível para moscas e outros bichos
     Se você começar a prestar atenção em todas as coisas que te expõem ao consumo de microorganismos, coliformes fecais e outros bichinhos do mal, tendo consciência de que isso pode levar anos para te prejudicar (Sabe o cigarro e a bebida? São coisas que consumimos e que levam anos para repercutir em doenças, mas chegam lá. O consumo de alimentos contaminados também pode levar anos para prejudicar a saúde de alguém, mas chega lá). Um salgado de carne moída, você deixa fora da geladeira ou de uma estufa numa boa? Cuidado! Quando você entra em padarias ou mercados que expõem produtos deste tipo sobre balcões e mesas, a chance de haver uma carga microbiológica nociva à sua saúde é muito maior. A cada 20 minutos, algumas bactérias podem dobrar a população existente no alimento, principalmente em temperatura ambiente. Para isso é bom ter consciência também de que todo alimento possui uma carga de microorganismos, o fato é que nosso organismo reage e nos defende. O problema é começar a exigir que o organismo faça uma guerra por refeição... isso pode acabar com a sua qualidade de vida.
utensílios de pizzaria armazenados em local inadequado
local repleto de ratos e baratas
Causo nº. 01

Certa vez...   ainda com pouca experiência de Vigilância Sanitária, caminhávamos eu e um Fiscal de Obras por uma movimentada rua da Cidade. Num determinado ponto o cheiro de queijo ficou muito forte. Parei olhei para o lado e vi um caminhão estacionado. Havia um cara andando sobre a carga e algumas caixas na calçada. Quando olhei e comecei a entender o que estava acontecendo, a seguinte cena se construiu na minha frente:

     Um caminhão aberto estava repleto de queijo fresco (queijo mineiro). Eram caixas vazadas (como as caixas das quitandas) cheias de formas de queijo. As formas são abertas tanto por cima quanto por baixo. Por cima da carga – e por cima mesmo, sem nenhuma proteção – além do cara andando, havia gaiolas vazias (mas sujas), um vídeo cassete quebrado, baldes, uma escada, algumas cordas e outros objetos sujos. Na calçada umas 6 caixas com queijo, também diretamente no chão. Um outro cara se preparava para levar as caixas para dentro de uma casa ao lado de um estabelecimento que montava pizzas. Uma cena surreal, inacreditável.
este é o famoso queijo mineiro clandestino
uma delícia!!!
     Parei e perguntei ingenuamente: “Cara, o que é isso?”. O cara que estava sobre os queijos disse naturalmente: “é queijo, uai!”. Depois de muita discórdia, eles ainda tentavam me convencer que o queijo seria lavado antes de ser vendido e que esse era um procedimento comum.

     O queijo havia vindo de Minas Gerais até Araraquara num caminhão aberto, coberto apenas por uma lona e com vários objetos por cima. Os queijos das caixas armazenas por cima estavam marrons.

     Toda a carga foi enterrada por máquinas na Usina de Lixo. Na época, meus superiores, talvez numa forma de castigo, me fizeram ir até a Usina dentro do caminhão que eu acabara de apreender e junto com os dois caras. Da hora da saída do centro da cidade até a Usina, fui ouvindo várias propostas e ameaças. Um dos caras dizia: “Você num tem coração, cara...”. Como se ele, comercializando lixo para as pessoas, tivesse...

     Vamos direto à algumas fotos que exemplificam muito bem a total falta de respeito de alguns proprietários de estabelecimentos comerciais e de seus funcionários para com os consumidores (para conosco).
recheio de bolo com formigas
sabem aquele bolo formigueiro? este é um ingrediente original!
recheio de bolo
observem quanta sujeira dentro e reparem no cabo da colher
quantas vezes já caiu e foi pego de dentro do creme!?
tanque de lavagem de utensílios de restaurante
a máquina é um descascador (sujo) de batatas
maionese pronta para consumo
reparem que o fundo de todas as travessas tocam os alimentos
Causo nº. 02

Certa vez...   num renomado estabelecimento de frios e massas da Cidade, pela enézima vez havia uma quantidade considerável de queijo sem qualquer identificação e armazenado em condições inadequadas de temperatura (cerca de 45kg). Além da exigência legal sobre o ponto de vista da Vigilância Sanitária, isto também indica sonegação fiscal, que é prejuízo para toda a Sociedade. Sob o prisma da Saúde, não dá pra confiar em produtos que não se sabe de onde vem. Quem trabalha em Vigilância Sanitária sabe disso. Outro aspecto importante deste causo é que orientações sobre este tipo de problema já haviam sido feitas no local muitas vezes e por vários fiscais.

     Conversei com os proprietários, mostrei o número de vezes que este item já havia feito parte de folhas de orientação e até de autuações e optei por apreender e inutilizar as mercadorias, conforme preconizado na Legislação vigente naquela época. Liguei para meus superiores e solicitei o amparo de um veículo para o transporte das mercadorias até a Usina de Lixo. – Isto mesmo, ainda hoje muitas equipes de Vigilância Sanitária entram em ônibus para depois fazer vistorias nas áreas de manipulação dos restaurantes. Não há veículos... e certas vezes nem EPIs. – Como em quase todas as cidades brasileiras, Vigilância em Saúde não é prioridade. Desta forma, não havia nenhum veículo para tal atividade, notei também certa intenção de meus superiores em não facilitar meu trabalho. Resolvi interditar as mercadorias e busca-las no dia seguinte para o descarte. Fiz todos os documentos necessários – e são vários – e coloquei tudo em sacos pretos lacrados com lacres numerados. Nos documentos anotei informações quanto às responsabilidades civis e criminais no caso do consumo, comercialização ou ocultação dos produtos, tudo conforme a Lei.

     No dia seguinte, voltei acompanhado por mais um Fiscal e pela minha Técnica responsável na época(pessoas dedicadas ao trabalho que continuo admirando). Para nossa surpresa, assim que entramos notamos um casal passando no caixa com um queijo muito parecido com os que eu havia interditado. Entrei um pouco mais no estabelecimento e vi que quase todo o queijo e os outros produtos que deveriam estar interditados estavam de volta em seus lugares na área de venda.
ralo de cozinha de lanchonete
     Pedi imediatamente que chamassem os responsáveis pelo local. Todos os funcionários diziam que os responsáveis estavam fora da Cidade e que o “Vereador 1 havia sido chamado pelos responsáveis pelo estabelecimento para intervir no caso da apreensão. Segundo os funcionários, o “Vereador 1 teria ido ao estabelecimento durante à noite e teria pessoalmente rompido todos os lacres e sacos dos produtos, ajudado a coloca-los de volta na área de venda e informado que era só dizer pro Fiscal que ele (“Vereador 1) tinha autorizado vender aquelas coisas.

     Na hora não deu nem para acreditar, mas, como o “Vereador 1 era (e é) famoso por quebrar galho de pessoas que estão com problemas com a fiscalização ou com multas e tributos, achei a estória bem possível de ser verídica. De qualquer forma, meu trabalho no local não tinha qualquer relação com o “Vereador 1, muito pelo contrário. O comportamento dele está longe de colaborar com a Vigilância ou com as necessidades reais da População. Os únicos favorecidos em situações assim são os proprietários e o próprio vereador, que faz sua mediazinha, mesmo sendo seu ato danoso à População.

     Informei aos funcionários que se os responsáveis, ou seja, aqueles que haviam assinado os documentos não se apresentassem no local, eu seria obrigado a chamar uma viatura da Polícia Militar (e devo dizer: precisei chamar viaturas umas 4 vezes. Sempre foram super profissionais e atenderam com muita rapidez e eficiência os chamados – ainda bem!). Os funcionários começaram a fazer várias ligações até que me avisaram que os proprietários estariam ali em 30 minutos.
barata em padaria
     Enquanto aguardava, meu telefone tocou. Para minha surpresa era um  “Assessor de Gabinete da Prefeitura”. Me questionou sobre o que estaria ocorrendo e se haveria alguma forma de contornar aquilo. Expliquei tudo, inclusive o número de vezes em que as orientações relacionadas ao problema foram passadas por escrito aos responsáveis. Ele rodeou, dizia sem dizer ... até que perguntei: ““Assessor de Gabinete da Prefeitura”, o que você de fato quer que eu faça aqui?”. Ele então respondeu: “Não tem como deixar quieto isso aí? Numa próxima vez você toma a atitude que for necessária.” Respondi: “Esta é a atitude necessária desta vez. Se você quer que eu cancele algum documento ou alguma ação minha neste local, é só me mandar por escrito.” Ele rapidamente disse: “Eu não posso fazer isso!” Aí eu disse: “Ah! E eu posso? Um simples fiscalzinho!” Para concluir ele soltou uma pérola: “Desta forma você não ajuda em nada o nosso Governo.” Respondi: “Não sou pago para ajudar nenhum Governo, sou pago para fazer meu trabalho de fiscalização e meu público final é a População. Se você acha que proteger o causador de um problema recorrente que põem em risco à saúde das pessoas é ser contrário a um governo, você é que deveria estar fora do governo!” E não é?

     Os responsáveis chegaram e confirmaram a estória contada pelos funcionários. Reafirmaram a conduta lamentável e criminosa do “Vereador 1.

     Dois queijos haviam sido comercializados. Isso seria motivo para que as coisas ficassem mais complicadas para quem tinha assinado a papelada. Como ocorreu esta vexaminosa interferência por parte do “Vereador 1, optei por apenas descartar as mercadorias que estavam disponíveis, mas não sem esclarecer a importância de certos padrões de qualidade à pessoa responsável. Hoje, alguns anos depois, consumo neste local e noto não haver ressentimentos por parte dos proprietários, porém, um monte de mercadorias ficam expostas fora de temperatura e sem os rótulos... Devem ter mudado a lei.

Vamos a mais exemplos:
pão (do moreninho) em chão de padaria aguardando para ser colocado no balcão de venda
utensílios usados por confeiteiro em padaria
veneno inadequado colocado ao lado de estante de pães em padaria
prestem atenção no piso
balcão de lanchonete
além da sujeira... há canos de esgoto abertos
     Na maioria dos lugares, as Vigilâncias Sanitárias não são feitas para funcionar. A exigência legal e burocrática relacionada ao preenchimento de boletins e números de vistorias (produção) acaba sendo a única coisa feita dentro dos prazos (e olha lá!). A falta de prédios adequados para as equipes poderem trabalhar dignamente, de veículos para deslocamento, de equipamentos, de treinamentos e principalmente de motivação acabam culminando em vistorias mal executadas e funcionários entregando os pontos depois de dar muito murro em ponta de faca. O lado burocrático da fiscalização é muito penoso e torna o serviço limitado e engessado. Associado a tudo isso estão os grandes ocultadores da verdade. Muitos dos cargos de chefia das Vigilâncias e de qualquer outro órgão público estão sujeitos a serem ocupados (ou usurpados) por políticos profissionais ou por funcionários de carreira que recebem o cargo por indicação ou apadrinhamento político e não têm condições técnicas de trazer bons frutos para o trabalho. Muitos destes profissionais de carreira estão lá apenas para cumprir ordens de seus superiores e assinar qualquer coisa. Fazem futriquinhas, como nas novelas. (Além, é lógico, de aliviar a barra de donos de estabelecimentos e pessoas em desacordo com a Legislação) e para pressionar qualquer um que tente ir contra esta maré de desrespeito, marasmo e conformismo.
paredes acima de balcão de lanchonete
formas de padaria no chão em área externa
o local era uma casa adaptada para padaria - sem condições
Causo nº. 03

Certa vez...   recebemos uma notificação de uma funcionária que prestava seus serviços técnicos em uma instituição filantrópica. O problema era relacionado aos pombos que haviam invadido o local. Fomos ao imóvel e notamos que de fato o problema era sério. Tratava-se de uma instituição que atende crianças portadoras de graves deficiências. Algumas faziam uso freqüente de medicamentos que tornam o sistema imunológico menos resistente. Para quem pesquisou sobre a Criptococose, deve saber que os imunodeprimidos são os mais vulneráveis. Mas a situação era muito mais grave. No prédio havia vários pontos onde os esgotos estavam abertos e muitos criadouros de mosquitos em lajes, calhas e recipientes.

     Como já esclareci em postagens anteriores, quase todas as pragas urbanas e espécies da fauna sinantrópica são evitáveis com procedimentos de vedação e limpeza. Mesmo sendo uma edificação grande, com boa vontade, é possível gastar pouco dinheiro e resolver os problemas.
fezes de aves e de roedores em vitrô de área de manipulação de padaria
     Depois de fazer toda a vistoria e os registros fotográficos necessários, tornamos a procurar a pessoa que havia solicitado o atendimento. Esclarecemos todas as situações existentes no local e informamos que faríamos um relatório e uma ficha de orientações. Questionamos então quem eram os responsáveis. Para nossa surpresa, era o “Vereador 2.

     O local estava muito ruim, inviável para a atividade a qual se propunha e, de acordo com pessoas que estavam no local, o “Vereador 2 estaria fazendo uso do prédio para reuniões de seu partido e pessoas do partido estariam fazendo uso dos telefones da instituição para fazer contatos com correligionários de vários outros municípios e estados. Haviam mesmo muitas listas telefônicas de várias localidades na Instituição.
fezes de pombos em cozinha de restaurante
     Nosso problema no local relacionava-se tão somente com as questões de Saúde inerentes às condições precárias do imóvel. Obviamente que, apesar de ser comum, este tipo de situação envolvendo políticos chega a embrulhar o estômago.

     No dia seguinte elaboramos o relatório citando os problemas e solicitando prazos para as adequações. Foi tudo dentro de normas razoavelmente aceitas pela Legislação. (Sempre se observam as condições das pessoas, os tipos de atividades ou os tipos de estabelecimentos para tentar ponderar as condições de resolução dos problemas). O problema é que os prazos não foram cumpridos e a fiscalização foi passada para outra equipe. Claro que o local está totalmente ... totalmente ... ( ... resolvi fazer suspense ... ) ... totalmente ... igual ou pior do que estava. O mais cruel é ver em outdoors que, vez ou outra, o “Vereador 2 divulga seu nome junto das campanhas beneficentes da instituição. Que absurdo!


Vamos ver mais umas imagens...
cozinha de lanchonete - local totalmente aberto (e famoso)
marcas do acesso de ratos em açougue de mercado
grelha de cozinha de restaurante
Causo nº. 04

Certa vez...   ainda novo na Vigilância, fui fazer uma vistoria num bar que há muito tempo não renovava seu alvará. Quando cheguei em frente ao local e vi as condições do lado de fora... já fiquei bastante preocupado. Entrei, aí piorou. Me apresentei a um senhor de uns 75 anos com a barba mal feita e a roupa encardida que estava atrás do balcão, fui ao banheiro lavar as mão e notei que não havia sabão, papel, toalha, higiene e nem água. Ainda assim, me paramentei na porta do banheiro cujos azulejos eram poucos ainda cimentados nas paredes. O cheiro de urina era forte e o vaso sanitário estava bem feio de ver. Enquanto me paramentava olhei para as prateleiras e só vi cachaça. Muitas garrafas empoeiradas de cachaças vagabundas. Sobre o balcão um pote com salsichas (esverdeadas) em conserva, alguns torresmos numa estufa e uma coxinha visivelmente murcha. O chão de todo o boteco estava sujo, cheio de papéis e tampas de garrafas. O forro era de madeira e, quando olhei melhor para cima, fiquei com medo que caísse sobre minha cabeça ou que alguma das aranhas pudesse me aprisionar em teias que deveriam ter mais de uma década ali. Pedi licença e fui para trás do balcão. Nas prateleiras do balcão havia muitos jornais velhos, pedaços de limão já espremidos, copos sujos, garrafas abertas, baratas, poeira e umas calabresas defumadas (que, com um limãozinho ficam uma delícia!).
caixa de gordura de cozinha de restaurante
     Achei que não poderia piorar e cai na besteira de perguntar: “Quem fornece salgados e torresmos para o senhor?”. E ele respondeu: “Ninguém, faço tudo aqui mesmo.” Afirmei: “Mas aqui não tem cozinha.”. e ele disse: “Tem sim. A gente entra pela porta ao lado e tem um salão bem grande aqui atrás.”. Confesso que meu estômago gelou. Percebi que as coisas poderiam piorar...

     Fomos ao tal salão. Era grande mesmo. Maior que todo o bar. Por todo lado haviam coisas quebradas, jogadas e muita poeira. Havia entulhos e muitos papéis e sacolas. Parte do forro já havia caído, aí deu pra ver que perigava do telhado todo vir abaixo. No meio disso tudo vi um fogão bem engordurado com umas panelas. Pensei comigo: “Só falta ser ali o preparo do torresmo!?”. Acho que ele leu meus anseios e disse: “É neste fogãozinho que preparo as coisas.”
depósito de supermercado
     Voltamos para o bar e eu nem sabia por onde começaria minhas orientações. Aquele senhor não tinha nenhuma noção de higiene e de Vigilância. Anos e anos fazendo daquele jeito.

     Peguei um banco, puxei até o balcão, coloquei meu bloco de orientações sobre o balcão e comecei a escrever. Deve ter dado um punhado de itens com prazos bem variados, indo do imediato aos 6 meses. Expliquei tudo detalhadamente ao proprietário e disse que não haveria como renovar seu alvará sem que aquelas coisas fossem concluídas. Além dos itens relacionados à higiene e à proibição de manipular alimentos ali no estabelecimento, acabei pedindo reforma do telhado, do forro, do piso e dos azulejos, do banheiro, da pia... Ele me dizia: “Não sei se vai dar pra fazer tudo isso.”. Convidei-o a atravessar a rua e olhar para seu próprio estabelecimento. De frente para o bar eu perguntei: “Tá feio, num tá? Deve ser o bar mais feio da Cidade!”. Ele então sorriu e disse: “Vamos ver o que eu consigo fazer.”.
verduras em depósito de supermercado
o piso estava repleto de urina e fezes de ratos
     Nem quis conferir os itens de menor prazo, deixei tudo para 6 meses. Um belo dia, conferi minha agenda e vi que naquela semana venceria o prazo de 6 meses. Comecei a preparar o espírito para voltar ao local. Imaginei que muito pouco estaria feito e que infelizmente teria que tomar atitudes mais desagradáveis naquele estabelecimento. No dia em que o prazo venceu, reuni minhas forças e fui a pé e lentamente para o bar. Quando cheguei, já observei que o reboco da fachada estava reformado. Ainda assim fiquei desconfiado e esperando o pior. Subi os dois degraus e passei para dentro do bar. Olhei para o piso e vi um piso novo, simples, mas novo. Olhei para cima e vi que o forro havia sido trocado por um novinho de pvc. Olhei para o proprietário com entusiasmo e disse: “Pelo jeito o senhor fez tudo.”. E ele disse: “Não deu tempo de pintar. O prazo já venceu?”. Afirmei que sim, mas que não havia problema. Ele poderia concluir depois. Fui ao banheiro para lavar as mãos e tratava-se de um banheiro novo, todo azulejado e com tudo funcionando. A toalha de mão tava meio trash, mas, diante de tudo aquilo que eu via... isso não era nada.
confeitaria
     O boteco estava bem mais organizado também. Ele removeu a poeira e todos os lixos e tralhas que só estavam atrapalhando. Até no salão dos fundos a reforma havia sido feita e o fogão era usado só para fazer café.

     Minha alegria era tanta que agradeci ao proprietário por seu comportamento surpreendente. Tanto que quase deixei de observar alguns detalhes que nunca mais sairão de minha cabeça... Enquanto tirava o avental e a toca, olhei para cima do balcão e vi um pote com salsichas em conserva, iguais àquelas esverdeadas do começo deste causo. Tive a curiosidade de abrir e cheirar o pote. Fedia carniça misturada com vinagre, alho e cebola. Tava terrível. Pedi ao senhorzinho que cheirasse e saiu lágrima dos olhos dele, de tão ruim que estava aquele treco. Informei que tínhamos que jogar aquilo fora, por no lixo. Ele rapidamente agarrou o pote e foi para o banheiro. Não entendi, achei que fosse o único cesto de lixo disponível, mas não, era bem pior. Ele jogou todo o conteúdo do pote no vaso sanitário e começou a dar a descarga. As salsichas rodavam e rodavam dentro do vaso, mas não iam embora. Depois de algumas tentativas, ele se cansou e pegou com as duas mãos todas as salsichas que estavam no vaso sanitário e colocou-as de volta no pote. A cena era das mais bizarras e ainda iria ficar um pouco mais... De posse do pote o senhorzinho foi para a rua e colocou as salsichas no pé de uma árvore pra que os cães pudessem comer. Fiquei apenas olhando. Sem lavar as mãos ele veio em minha direção e disse: “Pronto agora tá tudo resolvido.”. E estendeu a mão para se despedir. Não tive como fugir dessa e dei a mão para ele. Ele pegou o pote vazio e colocou na pia do bar. Continuei apenas olhando e não resisti, tive de perguntar: “O senhor vai fazer mais salsichas?”. E ele disse: “Vou, daqui a pouco vou buscar mais, o pessoal gosta de tomar umas comendo alguma coisinha.” Então eu disse: “O senhor vai usar o mesmo pote?”. E ele respondeu: “Vou, mas pode ficar tranqüilo que vou lavar bem direitinho antes.” Expliquei mais algumas coisas, descartamos o pote e fui embora rindo sozinho...
fundo de refrigerador em restaurante
gaiola suja em cozinha de boteco
     Num local simples ... com um senhor de idade (e simples) ... as coisas, mesmo de forma muito estranha, aconteceram. Não somente eu estava feliz... era nítido o sentimento de orgulho daquele senhor em ter dado conta de seu compromisso. Muitos lugares bacanas e com recursos para oferecer higiene e qualidade aos consumidores fazem da produção de alimentos um mero instrumento para o lucro. Desta forma, exploram seus funcionários – que aceitam trabalhar em lugares cheios de ratos, mofados e sujos – e lesam o consumidor – que, no Brasil, está muito longe de fiscalizar seus interesses e direitos.
vestiário de restaurante
deveria ser limpo e ter armários
     Nos causos que contei foram apontadas as participações lastimáveis de políticos tentando interferir em questões de fiscalização que colocavam em risco a Saúde da População.

     De qual lado está esta gente? Tanto o proprietário de um estabelecimento que procura um político para ajuda-lo a burlar a lei quanto o político que se coloca a fazer tal papel estão prejudicando diretamente seus consumidores e eleitores respectivamente. Não seria papel de um vereador saber como andam as fiscalizações em seu Município e lutar para que as normas sejam cumpridas e as equipes tenham condições de trabalho? Afinal eles formulam as Leis e depois querem boicota-las!? Estranho!!!
depósito de restaurante
     Temos também os vereadores sempre citados por donos de terrenos, casas abandonadas, áreas invadidas e todo tipo de coisa danosa à População. São os “quebra multa” ou “quebra galho”. Se você está com seu imóvel ou estabelecimento limpo e não causando problemas à ninguém, você não precisa pedir favorzinhos. Agora, mais feio que pedir o favorzinho, principalmente se você está errado, é o político profissional fazer o favorzinho... é o fim da picada!!! (ou, se o favorecido for o dono de imóvel com criadouros de mosquito, é o começo da picada!!!).
esgoto entupido em restaurante
o local fedia merda e foi interditado
     Pelo que sei, os vereadores e os políticos profissionais “pendurados” nas Administrações Públicas deveriam primar pela população, mas nitidamente não é isso o que acontece. Os vereadores deveriam também fiscalizar o executivo, ou seja, a forma como um ou outro Governo estão fazendo as coisas. Quanto a isso, nem preciso me estender muito. O Prefeito manda, os vereadores aprovam... esta é a regra. Quem hoje parece ser contra... amanhã parece ser a favor. Vale tudo, desde que o pessoalzinho saia no lucro.
fezes de ratos atrás de churrasqueira de restaurante
     Infelizmente, em Araraquara, não bastasse a falta de produção e de importância efetiva dos vereadores em cumprir seus papéis, aumentaram o número de vereadores... e dizem que gastarão menos. Deve ser a tal “matemágica”. A “matemágica” é um tipo de matemática muito utilizada por políticos para esclarecer seus números bizarros para a População desatenta. Através da “matemágica” é possível justificar: os próprios aumentos de salários; as contratações de assessores; as viagens; os almoços; os contratos zilionários com empreiteiras e fornecedores... E quase todos os absurdos possíveis... inclusive os churrasquinhos e outras baladinhas picantes.

     Pense bem antes de dar seu voto para qualquer malandro oportunista por aí e observe melhor as condições dos lugares que você freqüenta para comer ou para comprar seus alimentos. A População parece estar dormente diante do nível das pessoas que estão se elegendo para todos os cargos políticos. Não param para pensar se o candidato tem condições de trabalhar com Leis e com dinheiro público. Não dão à mínima para a forma como os favores políticos são pagos, para quanto isto custa e de onde as verbas são desviadas... Não importa se sai da merenda das crianças ou do remédio dos doentes... até quando?
esgoto aberto em cozinha de restaurante
     Como disse na postagem anterior, há Leis que garantem ao consumidor conhecer os estabelecimentos que frequenta (sejam restaurantes, padarias, lanchonetes...). Permitir o acesso do consumidor às áreas de manipulação é obrigação. Há Leis também que obrigam as Vigilâncias a tornarem suas ações públicas, desta forma parte do que acontece é publicado em algum jornalzinho de circulação local, em letras pequenas, junto aos atos oficiais... para ninguém ler (e ver) mesmo. O que posso garantir, tendo como base minhas experiências profissionais, é que há bons lugares para se fazer uma boa refeição, porém são poucos os que mantêm um padrão razoável. O melhor, quando não for possível fazer o seu próprio rango, é buscar conhecer e prestar muita atenção nos locais que você costuma pedir sua comida ou fazer suas compras. Existem sérios riscos para a sua saúde e para a saúde da sua família em locais que não cuidam da higiene e dos procedimentos de manipulação de alimentos. Tome cuidado e seja exigente. No caso de dúvidas consulte a Vigilância Sanitária de seu Município ou denuncie diretamente aos órgãos de defesa do consumidor (PROCON / CODECON). Se você se sentir prejudicado ou lesado, ações podem ser revertidas em indenizações e os responsáveis podem responder civil e criminalmente por crime contra o consumidor.
gaveta de pista quente de alimento
além do veneno, há fezes de ratos e baratas
badeja de salgados
segundo os funcionários não havia outro lugar para coloca-los...
bancada de fábrica clandestina de torresmos e pururucas
torresmo grudado em parede atrás da fritadeira
local bom para gravação de episódio dos jogos mortais...
     Na próxima semana, não haverá nenhuma postagem. Tentarei melhorar os recursos visuais e a diagramação do Blog.

Para consultar a Legislação ou buscar mais detalhes: