quinta-feira, 10 de março de 2011

As pessoas que ninguém quer ver


IMPORTANTE: Todo o texto foi elaborado por mim tendo por base minhas experiências profissionais na área de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente. Os registros fotográficos também são de minha autoria. Quando houverem informações ou imagens de outras fontes, elas serão mencionadas. Não me oponho ao uso deste material parcialmente ou na integra para fins educativos ou para a confecção de trabalhos escolares, porém, por uma questão de respeito, peço que qualquer imagem ou trecho de textos retirados deste Blog mencionem o link:


Obrigado.



     Dando continuação aos assuntos ligados à minha área profissional, tentarei trazer uma série de postagens que terão por foco as pessoas invisíveis. Sim, apesar de parecer coisa da ficção científica, existem muitas pessoas invisíveis na sociedade. Mesmo permeando quase todos os lugares e constituídos das mesmas coisas que nós – os seres humanos – , as pessoas invisíveis existem e são invisíveis mesmo. Elas vivem à margem da sociedade (daí o termo: marginalizados). Você já deve ter visto uma por aí. Estranhou? Como assim!? Visto uma por aí!? Pois é, o fato de você ter visto uma por aí não significa que você a tenha percebido. Perceber um ser humano, repleto de defeitos e qualidades como todos nós, não é tarefa simples. Você pode não estar entendendo ainda. Para mim também é meio confuso. Não sei se percebo as pessoas. Às vezes... também não as vejo... Sabe aquele mendigo que cata papelão e passa de cabeça baixa pela rua da sua casa? Sabe aquelas mulheres que se vestem com sacos plásticos pretos e comem restos de lixo pelas ruas? Sabe aquela senhora que corria atrás das crianças perto do cemitério e vivia numa casinha quase caindo?... Então, eu vi estas pessoas... estive nas casas delas... falei com elas... chorei com elas e por elas, ouvi suas histórias...


     Algumas profissões dão a oportunidade para que algumas poucas pessoas possam se colocar no papel de fazer o bem para transformar positivamente a vida de terceiros. Para algumas poucas pessoas, ou o destino, ou Deus, ou suas escolhas de vida... ou sei lá... alguma coisa faz com que elas tenham a chance de transformar para melhor suas próprias vidas e a vida de muita gente (ou de pouca gente)... mas a chance da transformação é dada. Destas poucas pessoas que recebem esta oportunidade, outras, bem menos ainda, aproveitarão esta chance de maneira eficiente. Falar de Jesus e de fé é lindo, todo mundo gosta de falar. O duro é adotar uma mínima parte do que ele ensinou. Difícil é entender qual o propósito da vida. Passar por ela!? Ser um idiota (ou uma idiota)? Não se preocupar com o próximo!? Ter para ser? Fazer fofoca!? Ser egoísta? É isso!!? Então fu...!!!!!

     Minha profissão não é das mais queridas para as pessoas. Normalmente não é o objetivo de ninguém. Para ser sincero nunca havia passado pela minha cabeça. Dificilmente você escutará uma criança dizendo: “Mamãe, quando eu crescer quero trabalhar na Vigilância, quero pegar ratos, matar mosquitos, entrar em buracos de esgoto, caçar escorpiões e cobras, passar venenos... é meu sonho mamãe!”. Menos ainda você ouvirá isso de estudantes do ensino médio. Nos cursinhos nunca ouvi ninguém dizendo: “Vou ralar agora nesta reta final pra passar no vestibular e fazer o possível pra me formar e trabalhar em atividades de campo da Vigilância em Saúde.” Nas universidades... aí as universidades... pouca gente, e põem pouca nisso, participa da realidade da população... não conhecem os lugares onde moram e não fazem parte da política ou dos fatos locais (salvo raras e eventuais pessoas sinceras e convictas de seus princípios), sendo assim poucos universitários tem a vontade de trabalhar em atividades de campo ou em prol da população. Muitos dos que se envolvem na política assumem a reprodução da velha e falida política partidária profissional, não querem mudanças, querem manter as regras corruptas e os benefícios escandalosos.

     Trabalho na área de Vigilância em Saúde há quase 10 anos. Passei 5 anos na Sanitária e agora faço parte de uma equipe muito peculiar dentro da Vigilância Epidemiológica. Trabalhar nesta equipe foi opção minha. Vi um grupo de bons profissionais fazendo coisas fantásticas com pouquíssimos recursos. Vi pessoas comprometidas e dedicadas ao trabalho que faziam e executavam projetos bons para a População. Minha rotina é bem agitada. Entro em várias edificações, residenciais e comerciais, de alto e baixo padrão, no perímetro urbano e rural e me deparo com as mais distintas situações todos os dias. Para quem faz trabalho de casa-a-casa do combate à Dengue, o número de casas visitadas por mês é impressionante, podendo passar das 500 casas. Meu trabalho é com todos aqueles bichos que já fiz postagens e mais alguns que nem deu tempo de postar ainda. Tanto nas casas quanto nas questões com pragas ou espécies da fauna sinantrópica, há pessoas envolvidas. Pessoas, como todo mundo já sabe, são diferentes, são difíceis e não há duas iguais (e nem pense em fazer piadinhas com gêmeos! Não são pessoas iguais.). Em muitos dos casos, a situação que leva uma equipe de Vigilância à uma residência é apenas o começo de uma grande questão social e, muitas vezes, desumana.

     Com o passar dos anos notei ser crescente o número de processos envolvendo pessoas em condições muito precárias de vida que chegam aos balcões dos protocolos públicos. A Vigilância acaba sendo o setor onde todos querem se apoiar e onde recaem os problemas já em fase avançada de complicação, por exemplo: Normalmente os bichos aparecem numa casa em decorrência das condições precárias de um imóvel ou por conta das condições do próprio imóvel onde ele apareceu. No lugar de se queixarem do imóvel com problemas, as pessoas se queixam do bicho que apareceu. Aparece uma aranha numa casa. O morador chama a Vigilância e começa a falar um monte para quem atender sua reclamação.

Alguns casos são assim:

(versão telefônica)

Notificante diz: “Escuta aqui! É da Vigilância Sanitária!?”
Atendente responde: “Não, aqui é da Vigilância Epidemiológica.”
Notificante diz: “É da que cuida dos bichos!?”
Atendente responde: “É.”
Notificante diz: “Escuta aqui! Entrou uma aranha enorme na minha casa. É um absurdo! Aqui do lado tem um terreno cheio de mato, entulho, os vizinhos tacam lixo, tem um cara que põem um cavalo, de vez em quando eles botam fogo...”
Atendente questiona: “A aranha está viva?”
Notificante diz: “Lógico que não! Batemos com vassouras, meu filho tacou pedras... aí pusemos álcool e metemos fogo.”
Atendente responde: “Certo. Senhora, pedirei para que uma equipe vá até sua casa para tentar identificar a aranha, ver qual é o problema e para passar algumas informações. Para isso preciso abrir uma ocorrência. Qual seu nome? Endereço completo? E telefone pra contato?
Notificante diz: “Nem precisa, já joguei a aranha fora. Só quero que olhem o terreno. Meu nome num vai sair em nenhum lugar pro dono do terreno ver não, né?”
Atendente responde: “Os fiscais devem manter os notificantes em sigilo, mas, na verdade, a reclamação do terreno a Senhora precisa fazer pessoalmente ou pedir para alguém fazer o protocolo lá na Prefeitura. Aqui é uma seção da Saúde. Até encaminhamos processos para lá, mas seu problema é limpeza pública. A aranha só apareceu por causa das condições do terreno, certo? Sendo assim é bom a Senhora ter o nosso atendimento e também fazer o protocolo do pedido de limpeza do terreno.”
Notificante diz: “Tá vendo só, é o que todo mundo fala mesmo: Vocês são tudo um bando de vagabundos!!!! Ficam empurrando o serviço! Aparece uma aranha na minha casa e ainda tenho que me expor e reclamar do terreno... num vou dar nome nenhum não e nem quero que venha ninguém aqui. Vou por fogo no terreno quando o mato secar e que se dane!”

     Mesmo não sendo a regra, o comportamento sugerido acima é comum. Muita gente trata todo funcionário público como vagabundo. Mesmo quando nitidamente o fator causador do aparecimento de um bicho está relacionado com as condições precárias de um imóvel vizinho, as pessoas só se revoltam com o Estado e seus funcionários, ou servidores (se preferirem), mas não tomam as medidas legais contra os proprietários destes imóveis, que são os verdadeiros vilões. Assim como registrar Boletins de Ocorrências norteia as ações da Polícia no combate ao crime, os protocolos junto aos órgãos públicos competentes e o papel exigente e fiscalizador dos cidadãos é que garantem que certos espertinhos não possam ter um monte de lotes e imóveis cheios de problemas na Cidade e que quase nunca sejam multados (e que o Estado e seus agentes trabalhem efetivamente pelo bem coletivo).

Só para informação: Demandas de queixas e reclamações não devem ser cobradas e, até onde sei, não são. Desta forma não há desculpas para não reclamar e não exigir seus direitos.

     Há alguns passos a se seguir para ver seus pedidos “andando”:

é necessário ter paciência e entender que o Estado, de maneira geral é super burocratizado para evitar fraudes. O que, obviamente, facilita as fraudes e tem como única consequência tornar o Estado lento e engessado, dificultando o trabalho dos profissionais que raramente recebem treinamento adequado para lidar com a “burrocracia” do Estado.

não ache que tratar um funcionário público como um idiota ou com grosseria agilizará as coisas. Você pode estar falando com um bom profissional e sendo injusto com seu comportamento. Normalmente, o funcionário público precisa cumprir uma rotina de preenchimento de formulários, processos, memorandos, check lists, e tantas outras coisas que ele não está sendo lento para tornar sua vida pior. Ele apenas está tentando fazer seu trabalho para que ambos, você e ele, continuem suas vidas em paz. Se você perceber que é corpo mole, denuncie!

faça seus pedidos por escrito (em 2 vias) e exija protocolos, carimbos e assinaturas de recebimento. Não aceite acordos verbais, sempre faça por escrito.

não basta fazer a solicitação, você precisa acompanhar o andamento do processo. Peça informações pela internet, por telefone e até pessoalmente. Demonstre interesse.

se sua demanda não for atendida ou se você acreditar que o problema não foi adequadamente sanado, você deve cobrar novas providências. Se isto não ocorrer, busque informações no Ministério Público ou com um(a) Advogado(a).

se o problema for resolvido mas voltar a se repetir, repita os procedimentos até estourar o saco do proprietário e ele levar tantas multas que será melhor vender ou utilizar o imóvel. Assim tanto o notificante quanto as equipes de fiscalização terão mais tranqüilidade.

seus pedidos devem ser feitos nos órgãos competentes. Não adianta procurar favores políticos para ver seus pedidos atendidos. Como cidadãos, todos temos o direito de ver nossas demandas sanadas. Os políticos devem apenas garantir o bom funcionamento da máquina pública através da fiscalização que lhes é dever (muito pouco cumprido). Se você é merecedor de uma multa, tenha dignidade e pague, não barganhe seu voto!

     Esclarecidos estes importantes pontos, retomemos o assunto desta postagem... as pessoas invisíveis.

     Tanto pela Vigilância Sanitária quanto pela Epidemiológica, ano após ano venho me deparando com situações que exigem muito equilíbrio emocional e uma rápida tomada de decisões. Casas denunciadas, supostamente por problemas de limpeza e questões envolvendo ratos e outras pragas, acabam sendo na verdade tristes lares de pessoas completamente sem condições de manter suas vidas de forma adequada. Dependentes de álcool e de drogas, idosos abandonados pela família ou mantidos à míngua por causa de uma pensão, pessoas com transtornos mentais e várias outras situações existem aos montes nas cidades modernas e exigem soluções dos Agentes públicos. Não há dentro da estrutura pública mecanismos eficientes e preparados para lidar com estas questões. Aliás, geralmente, a estrutura pública é ruim, são alguns poucos funcionários engajados e compromissados com seus serviços que fazem a coisa funcionar.
quarto-banheiro-cozinha
     Me considero um destes profissionais responsáveis. Mais que isso, participei com meu suor da retirada de muitas e muitas toneladas de lixo e entulho de dentro de casas e quintais. Me deparei com situações onde vi que se eu não me propusesse a fazer o trabalho braçal e os encaminhamentos necessários, ninguém o faria. Estive em lugares onde os verdadeiros responsáveis pelo atendimento tinham nojo de entrar. Participei do resgate de vidas que estavam completamente deterioradas. Fiz tudo isso e posso contar nos dedos das mãos quem foram meus verdadeiros parceiros.

     Para algumas pessoas, melhor seria esconder as casas sujas e sumir com seus moradores porcos. Para o funcionário público cansado e acomodado, sua única obrigação é preencher papéis e encaminhar burocracias, todas as vidas que passam por suas mãos são apenas transformadas em números e registros, nada mais. Mesmo quando ele vai fazer uma atividade destas, vai de má vontade e faz tudo no atropelo. Como estamos lidando com vidas, não é possível mensurar qual vale mais, desta forma, se for possível tentar faze-la melhor, porque não? Porque se transformar num ser frio e mecânico que não sente nada ao ver o sofrimento humano? Poderia fazer como a maioria dos hipócritas com aquele péssimo discurso diante de desgrasças: “É nessas horas que a gente vê que é feliz e reclama de barriga cheia.”... então é pra isso que serve ver alguém em condições péssimas de vida!? Pra se sentir feliz!? Pra ver que a própria vida é melhor que a de um pobre coitado!? Que egoísmo...


a fé...
     Seguirei uma seqüência de relatos de fatos que ocorreram em trabalhos de campo que fiz na cidade de Araraquara (interior de São Paulo). Mesmo tendo ótimos indicadores de nível e qualidade de vida, questões sociais, de saneamento e de saúde borbulham nas mais diversas áreas do Município. Maiores inclusive que a capacidade de atendimento. Imagine nas cidades que estão na outra extremidade destes indicadores.

     Os casos que relatarei são de atendimentos nos quais as questões de Vigilância em Saúde propriamente ditas eram um pormenor.

Caso Maria da barba

     Sempre aberto por um notificante cujo nome, endereço e telefone não existiam, a casa onde residia a Dona Maria, conhecida por alguns como Maria da Barba ou Maria Louca, era alvo constante destas denúncias. Hora por causa do número de gatos, hora por causa do mau cheiro, hora por causa de água parada ou de ratos... sempre havia algum motivo para as denúncias. Não que de fato não houvessem os motivos. Eles existiam aos montes. A casa estava mesmo muito ruim. Havia trincas que possibilitavam ver o outro lado. Não era necessária qualquer habilitação em engenharia para achar que a casa colocava em risco os moradores. O esgoto era de “manilha” e estava bem danificado e entupido. Na casa, além das 3 pessoas, havia uns 12 gatos e 2 cães. Dadas as condições do imóvel, a limpeza era complicada, desta forma, o cheiro era mesmo bastante forte... uma mistura de fezes e urina de bichos e humana. Havia muitos pontos com rações e comidas para os gatos. Nestes pontos havia indícios de que o local não era higienizado há muito tempo, pois estavam engordurados e encrustados de restos de comida, cheiro que também se sentia pelo ar. Os móveis estavam bem deteriorados e sujos. Num quarto todo embolorado havia um colchão e muitas roupas jogadas. A cozinha estava bem suja e cheia de restos de comida. A casa não possuía laje e uma parte dos fundos já havia caído.
gato
     Na primeira vez em que estive lá, fiquei pensando por alguns instantes: Como uma pessoa chega a isto? Como pode viver assim?


dormitório
dormitório
     Além de observar minuciosamente o imóvel e suas condições, é necessário interagir com os moradores para tentar deixa-los à vontade e minimizar os constrangimentos de uma fiscalização. Esta interação requer boa vontade, percepção, talento e sobretudo respeito. Depende desta interação a chave para se desenvolver ou não um trabalho educativo, base de toda a Vigilância em Saúde, e para ter acesso livre ao local em futuras vistorias de acompanhamento. Se um profissional de campo ganhar a confiança de seu público, ele conseguirá causar algumas transformações e seu trabalho fluirá mais harmoniosamente.
teto do dormitório
     Enquanto observava o imóvel busquei conversar com os moradores de maneira bem popular, usando palavreado simples e descontraído. Percebi que um homem com cerca de 60 ou 65 anos se expressava muito bem, era bem ponderado e aparentava algum problema sério de saúde. A Dona Maria, ao contrário do que eu imaginei, conversava bem e demonstrava um bom raciocínio e memória, além de parecer muito franca. Havia também a filha da Dona Maria. Esta conversava com um pouco mais de dificuldade. Ficava facilmente agitada e nervosa. Tinha muito medo de imaginar que poderiam retirar seus gatos de lá. Este assunto era praticamente proibido. É muito importante para o profissional de campo respeitar as diferenças e decodificar seu campo de ação e até onde vão seus limites reais em cada situação.
gato 2
     Durante a vistoria fui fotografando todo o local e conversando com os moradores. Fui fazendo perguntas pessoais sobre as condições de saúde dos 3 e sobre atendimentos que eventualmente eles teriam pelo SUS (e aí engloba tudo, inclusive as vigilâncias... por isso o nome Sistema Único).
cozinha
     Segundo os relatos, tirando a filha da Dona Maria, que freqüentava a rede municipal e andava com suas consultas e medicamentos em ordem, os outros dois casos eram bem preocupantes. O homem era diabético e hipertenso e se auto medicava e a Dona Maria não fazia qualquer acompanhamento, exceto quando com dores ou doente.

     Burocraticamente falando, era só fazer uns papéis, encaminhar e pronto. Mas e aí? Não dava para fazer mais nada? As vezes não dá. O que é muito triste.

     Naquela hora só tive uma idéia. Queria ensina-los a limpar a casa. Algum padrão teria que ser estabelecido ali. Algum limite teria que ser estabelecido. Algo deveria servir como moeda de troca. Do jeito que a coisa estava não poderia ficar. Tentamos negociar a permanência dos gatos atrelada à limpeza periódica do imóvel com produtos adequados.
dormitório-cozinha
     Uma conversa destas pode durar horas, pode durar meses, pode nunca acabar. Para minha sorte, não sei se certas conspirações universais agem em nosso favor, mas naquele dia, todos estavam em sintonia. A conversa fluiu muito bem. No começo foi difícil convence-los de que a água sanitária custava menos de R$1,00 e que o detergente menos ainda. Depois conseguimos combinar algumas melhorias. Todos se comprometeram a ajudar na limpeza. A renda deles não era das piores. Dava para viver. O problema estava na auto estima. Chegamos num local onde as pessoas haviam desistido delas. Cada uma do seu jeito e com seus problemas, mas no mesmo barco.
comida para os animais
     No decorrer das conversas, perguntei sobre a história de vida da Dona Maria. Perguntei desde quando ela morava naquela casa. Ela não mudava sua expressão. Conversava sempre com o mesmo olhar. Me contou que morava ali desde muito nova. Toda sua família morava ali. Ela então começou a me contar passagens marcantes de sua vida. Lembrou que ainda nova perdeu uma filha. Graças a isso surtou, entrou em depressão, não conseguia lidar com a dor da perda. Seu pai, ao ver tal situação, internou-a numa fazenda manicômio. Perguntei quais lembranças ela tinha de lá. Ela me disse que vieram e a levaram numa camisa de força. Ao chegar no local ela disse se lembrar que a primeira coisa pela qual passou foram os choques na cabeça. Segundo ela, depois disso, ela nunca mais ficou “normal”.
demos uma varrida na sala
     Não é fácil ouvir certas coisas e não se emocionar. Não imaginar o sofrimento de uma mulher que perde um filho e ainda é torturada. Mais emocionante ainda é enxergar um ser humano lindo e cheio de amor em alguém onde as pessoas não vêem nada.

     Ao terminar meu trabalho de vistoria e levantamento no local, pedi para tirar uma foto dela. Pedi que ela desse um sorriso bem bonito para eu fotografar. Nesta hora, na mais pura sinceridade, ela me disse: “Eu não sei sorrir.” Nunca me esquecerei desta frase. No hora fiquei muito comovido.
Dona Maria em sua casa
     Voltamos mais algumas vezes na casa deles e fizemos uma série de encaminhamentos oficiais. Notamos melhoras significativas na casa, porém as condições estruturais do imóvel não ajudavam.

     Considerando ser a semana do dia internacional da mulher, presto esta homenagem a Sra. Maria. Por quem me emocionei ... por quem chorei. Apesar de invisível para muitos, tive a chance de ver a Dona Maria da barba e de fazer algo por ela, mesmo que pouco.
um tímido sorriso de uma mulher sofrida
     Hoje ela é falecida, a casa foi demolida e sua filha e seu cunhado vivem numa instituição para idosos...


Dona Maria... faleceu cerca de 1 ano após esta foto

     Na semana que vem, dois casos. O da Sra. Tereza e o da Ângela. A Sra. Tereza tinha mal de Alzheimer e vivia sozinha e a Ângela era uma mãe dependente de crack com um recém nascido.

Obrigado e até a próxima....

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

“O que os olhos não vêem, o estômago não sente?” (e outros Causos)


vai um pãozinho aí?


IMPORTANTE: Todo o texto foi elaborado por mim tendo por base minhas experiências profissionais na área de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente. Os registros fotográficos também são de minha autoria. Quando houverem informações ou imagens de outras fontes, elas serão mencionadas. Não me oponho ao uso deste material parcialmente ou na integra para fins educativos ou para a confecção de trabalhos escolares, porém, por uma questão de respeito, peço que qualquer imagem ou trecho de textos retirados deste Blog mencionem o link:


Obrigado.


balcão de cozinha de restaurante de comida caseira
     Com a correria da vida cotidiana é cada vez mais freqüente que as pessoas não tenham tempo de cuidar do próprio alimento. Homens e mulheres levam uma vida cada vez mais cheia de tarefas. Além do trabalho (ou dos trabalhos), que tem por finalidade garantir a todos os meios para fazer parte deste mundo de consumo, novas tarefas roubam o tempo necessário para atividades como cozinhar, limpar a casa, etc.... Uma, duas, três... várias vezes por semana recorremos ao alimento feito em estabelecimentos comerciais dos mais variados ramos de atividade ou compramos coisas semi prontas e congeladas. É quase unânime que alguns temperos e conservantes utilizados nos alimentos nos causam enjôos, uma louca vontade de beber água, inchaço e é difícil manter o mesmo fornecedor por muito tempo. Mesmo nos lugares que afirmam fazer coisas naturais, light, diet e caseiras, usam-se muitos temperos prontos e coisas industrializadas.

máquina de dividir massa de pão
     Não bastasse isso, temos também que nos preocupar com as condições de higiene nas quais os alimentos que comemos são armazenados, preparados, servidos e consumidos. Pouca gente dá importância a isso. É estranho, mas já estive participando de interdições de estabelecimentos em que, mesmo vendo toda a falta de higiene que estávamos encontrando no local, alguns consumidores pediam: “dá mais um salgado deste”. E olha que era filme de terror – ratos ... baratas ... coisas vencidas ... muita sujeira!

     Não é hábito do brasileiro exigir seus direitos. Além disso, temos uma população que foi educada a olhar um político desviando dinheiro e se conformar dizendo: “todos eles roba, é assim memo, faze o que?”. Dentro deste quadro, poucos são os que se preocupam com as coisas que refletem em suas próprias vidas. E nisso incluo a alimentação. Quando entramos em alguns estabelecimentos como: restaurantes, lanchonetes, pizzarias, açougues, padarias, quitandas... bares... de cara já é possível notar se o local está bem cuidado ou não. Lugares sujos não conseguem disfarçar muito a sujeira, basta estarmos atentos. Em alguns restaurantes, a cor da porta que dá acesso à cozinha já pode dizer muito sobre o lugar. O chão, as paredes, o teto, a iluminação, os uniformes dos funcionários e, principalmente, o cheiro de alguns estabelecimentos desmascaram qualquer fachada cheia de coisas brilhantes, cromadas e sedutoras. Cheiros que sinto com freqüência são: cheiro de ratos, cheiro de baratas, cheiro de venenos, de esgoto e de coisas podres. E não é raro. Antes de escrever esta postagem, passei em 4 supermercados da Cidade para gastar meu mísero ticket. Observei em todos eles vários problemas. Os principais eram: falta de higiene e produtos expostos de forma inadequada (sem identificação ou fora de temperatura).
lixeira de cozinha de restaurante
reparem na quantidade de bigatos
     Falta de higiene é moleza de ver. Dê uma agachada e olhe por baixo das prateleiras, gôndolas e equipamentos... normalmente tem de tudo. Quanto aos cheiros... só sentindo mesmo. Agora, quanto aos produtos, fique atento. Coisas sem rótulos, fora de temperatura, vencidas... tudo isso é quase regra em todos os estabelecimentos de todos os lugares do Brasil em que já estive.
sujeira atrás de equipamento em lanchonete
fezes de ratos e baratas
     Pela Legislação brasileira, os produtos de interesse à Saúde devem possuir informações obrigatórias. São coisas como: nome do fabricante; endereço; CNPJ ou outro registro válido; se forem produtos de origem animal devem possuir carimbo de inspeção – SIF, por exemplo; modo de conservação, incluindo temperatura e condições de armazenamento e; data de validade... entre outros itens.
vai um churrasquinho aí?
     Quase todos os produtos com ingredientes de origem animal devem ficar refrigerados ou em estufa (aquecidos). As temperaturas necessárias variam de acordo com o produto. Para alimentos quentes, o ideal é uma temperatura acima dos 70ºC. Já os que necessitam de refrigeração podem exigir -18ºC para os congelados, 0ºC à 5ºC para um bacalhau salgado (pode prestar atenção na próxima compra. Nada de temperatura ambiente. Se o bacalhau estiver levemente rosado, passe longe) ou até 16ºC, como é o caso das margarinas.
moedor instalado em área externa de padaria
acessível para moscas e outros bichos
     Se você começar a prestar atenção em todas as coisas que te expõem ao consumo de microorganismos, coliformes fecais e outros bichinhos do mal, tendo consciência de que isso pode levar anos para te prejudicar (Sabe o cigarro e a bebida? São coisas que consumimos e que levam anos para repercutir em doenças, mas chegam lá. O consumo de alimentos contaminados também pode levar anos para prejudicar a saúde de alguém, mas chega lá). Um salgado de carne moída, você deixa fora da geladeira ou de uma estufa numa boa? Cuidado! Quando você entra em padarias ou mercados que expõem produtos deste tipo sobre balcões e mesas, a chance de haver uma carga microbiológica nociva à sua saúde é muito maior. A cada 20 minutos, algumas bactérias podem dobrar a população existente no alimento, principalmente em temperatura ambiente. Para isso é bom ter consciência também de que todo alimento possui uma carga de microorganismos, o fato é que nosso organismo reage e nos defende. O problema é começar a exigir que o organismo faça uma guerra por refeição... isso pode acabar com a sua qualidade de vida.
utensílios de pizzaria armazenados em local inadequado
local repleto de ratos e baratas
Causo nº. 01

Certa vez...   ainda com pouca experiência de Vigilância Sanitária, caminhávamos eu e um Fiscal de Obras por uma movimentada rua da Cidade. Num determinado ponto o cheiro de queijo ficou muito forte. Parei olhei para o lado e vi um caminhão estacionado. Havia um cara andando sobre a carga e algumas caixas na calçada. Quando olhei e comecei a entender o que estava acontecendo, a seguinte cena se construiu na minha frente:

     Um caminhão aberto estava repleto de queijo fresco (queijo mineiro). Eram caixas vazadas (como as caixas das quitandas) cheias de formas de queijo. As formas são abertas tanto por cima quanto por baixo. Por cima da carga – e por cima mesmo, sem nenhuma proteção – além do cara andando, havia gaiolas vazias (mas sujas), um vídeo cassete quebrado, baldes, uma escada, algumas cordas e outros objetos sujos. Na calçada umas 6 caixas com queijo, também diretamente no chão. Um outro cara se preparava para levar as caixas para dentro de uma casa ao lado de um estabelecimento que montava pizzas. Uma cena surreal, inacreditável.
este é o famoso queijo mineiro clandestino
uma delícia!!!
     Parei e perguntei ingenuamente: “Cara, o que é isso?”. O cara que estava sobre os queijos disse naturalmente: “é queijo, uai!”. Depois de muita discórdia, eles ainda tentavam me convencer que o queijo seria lavado antes de ser vendido e que esse era um procedimento comum.

     O queijo havia vindo de Minas Gerais até Araraquara num caminhão aberto, coberto apenas por uma lona e com vários objetos por cima. Os queijos das caixas armazenas por cima estavam marrons.

     Toda a carga foi enterrada por máquinas na Usina de Lixo. Na época, meus superiores, talvez numa forma de castigo, me fizeram ir até a Usina dentro do caminhão que eu acabara de apreender e junto com os dois caras. Da hora da saída do centro da cidade até a Usina, fui ouvindo várias propostas e ameaças. Um dos caras dizia: “Você num tem coração, cara...”. Como se ele, comercializando lixo para as pessoas, tivesse...

     Vamos direto à algumas fotos que exemplificam muito bem a total falta de respeito de alguns proprietários de estabelecimentos comerciais e de seus funcionários para com os consumidores (para conosco).
recheio de bolo com formigas
sabem aquele bolo formigueiro? este é um ingrediente original!
recheio de bolo
observem quanta sujeira dentro e reparem no cabo da colher
quantas vezes já caiu e foi pego de dentro do creme!?
tanque de lavagem de utensílios de restaurante
a máquina é um descascador (sujo) de batatas
maionese pronta para consumo
reparem que o fundo de todas as travessas tocam os alimentos
Causo nº. 02

Certa vez...   num renomado estabelecimento de frios e massas da Cidade, pela enézima vez havia uma quantidade considerável de queijo sem qualquer identificação e armazenado em condições inadequadas de temperatura (cerca de 45kg). Além da exigência legal sobre o ponto de vista da Vigilância Sanitária, isto também indica sonegação fiscal, que é prejuízo para toda a Sociedade. Sob o prisma da Saúde, não dá pra confiar em produtos que não se sabe de onde vem. Quem trabalha em Vigilância Sanitária sabe disso. Outro aspecto importante deste causo é que orientações sobre este tipo de problema já haviam sido feitas no local muitas vezes e por vários fiscais.

     Conversei com os proprietários, mostrei o número de vezes que este item já havia feito parte de folhas de orientação e até de autuações e optei por apreender e inutilizar as mercadorias, conforme preconizado na Legislação vigente naquela época. Liguei para meus superiores e solicitei o amparo de um veículo para o transporte das mercadorias até a Usina de Lixo. – Isto mesmo, ainda hoje muitas equipes de Vigilância Sanitária entram em ônibus para depois fazer vistorias nas áreas de manipulação dos restaurantes. Não há veículos... e certas vezes nem EPIs. – Como em quase todas as cidades brasileiras, Vigilância em Saúde não é prioridade. Desta forma, não havia nenhum veículo para tal atividade, notei também certa intenção de meus superiores em não facilitar meu trabalho. Resolvi interditar as mercadorias e busca-las no dia seguinte para o descarte. Fiz todos os documentos necessários – e são vários – e coloquei tudo em sacos pretos lacrados com lacres numerados. Nos documentos anotei informações quanto às responsabilidades civis e criminais no caso do consumo, comercialização ou ocultação dos produtos, tudo conforme a Lei.

     No dia seguinte, voltei acompanhado por mais um Fiscal e pela minha Técnica responsável na época(pessoas dedicadas ao trabalho que continuo admirando). Para nossa surpresa, assim que entramos notamos um casal passando no caixa com um queijo muito parecido com os que eu havia interditado. Entrei um pouco mais no estabelecimento e vi que quase todo o queijo e os outros produtos que deveriam estar interditados estavam de volta em seus lugares na área de venda.
ralo de cozinha de lanchonete
     Pedi imediatamente que chamassem os responsáveis pelo local. Todos os funcionários diziam que os responsáveis estavam fora da Cidade e que o “Vereador 1 havia sido chamado pelos responsáveis pelo estabelecimento para intervir no caso da apreensão. Segundo os funcionários, o “Vereador 1 teria ido ao estabelecimento durante à noite e teria pessoalmente rompido todos os lacres e sacos dos produtos, ajudado a coloca-los de volta na área de venda e informado que era só dizer pro Fiscal que ele (“Vereador 1) tinha autorizado vender aquelas coisas.

     Na hora não deu nem para acreditar, mas, como o “Vereador 1 era (e é) famoso por quebrar galho de pessoas que estão com problemas com a fiscalização ou com multas e tributos, achei a estória bem possível de ser verídica. De qualquer forma, meu trabalho no local não tinha qualquer relação com o “Vereador 1, muito pelo contrário. O comportamento dele está longe de colaborar com a Vigilância ou com as necessidades reais da População. Os únicos favorecidos em situações assim são os proprietários e o próprio vereador, que faz sua mediazinha, mesmo sendo seu ato danoso à População.

     Informei aos funcionários que se os responsáveis, ou seja, aqueles que haviam assinado os documentos não se apresentassem no local, eu seria obrigado a chamar uma viatura da Polícia Militar (e devo dizer: precisei chamar viaturas umas 4 vezes. Sempre foram super profissionais e atenderam com muita rapidez e eficiência os chamados – ainda bem!). Os funcionários começaram a fazer várias ligações até que me avisaram que os proprietários estariam ali em 30 minutos.
barata em padaria
     Enquanto aguardava, meu telefone tocou. Para minha surpresa era um  “Assessor de Gabinete da Prefeitura”. Me questionou sobre o que estaria ocorrendo e se haveria alguma forma de contornar aquilo. Expliquei tudo, inclusive o número de vezes em que as orientações relacionadas ao problema foram passadas por escrito aos responsáveis. Ele rodeou, dizia sem dizer ... até que perguntei: ““Assessor de Gabinete da Prefeitura”, o que você de fato quer que eu faça aqui?”. Ele então respondeu: “Não tem como deixar quieto isso aí? Numa próxima vez você toma a atitude que for necessária.” Respondi: “Esta é a atitude necessária desta vez. Se você quer que eu cancele algum documento ou alguma ação minha neste local, é só me mandar por escrito.” Ele rapidamente disse: “Eu não posso fazer isso!” Aí eu disse: “Ah! E eu posso? Um simples fiscalzinho!” Para concluir ele soltou uma pérola: “Desta forma você não ajuda em nada o nosso Governo.” Respondi: “Não sou pago para ajudar nenhum Governo, sou pago para fazer meu trabalho de fiscalização e meu público final é a População. Se você acha que proteger o causador de um problema recorrente que põem em risco à saúde das pessoas é ser contrário a um governo, você é que deveria estar fora do governo!” E não é?

     Os responsáveis chegaram e confirmaram a estória contada pelos funcionários. Reafirmaram a conduta lamentável e criminosa do “Vereador 1.

     Dois queijos haviam sido comercializados. Isso seria motivo para que as coisas ficassem mais complicadas para quem tinha assinado a papelada. Como ocorreu esta vexaminosa interferência por parte do “Vereador 1, optei por apenas descartar as mercadorias que estavam disponíveis, mas não sem esclarecer a importância de certos padrões de qualidade à pessoa responsável. Hoje, alguns anos depois, consumo neste local e noto não haver ressentimentos por parte dos proprietários, porém, um monte de mercadorias ficam expostas fora de temperatura e sem os rótulos... Devem ter mudado a lei.

Vamos a mais exemplos:
pão (do moreninho) em chão de padaria aguardando para ser colocado no balcão de venda
utensílios usados por confeiteiro em padaria
veneno inadequado colocado ao lado de estante de pães em padaria
prestem atenção no piso
balcão de lanchonete
além da sujeira... há canos de esgoto abertos
     Na maioria dos lugares, as Vigilâncias Sanitárias não são feitas para funcionar. A exigência legal e burocrática relacionada ao preenchimento de boletins e números de vistorias (produção) acaba sendo a única coisa feita dentro dos prazos (e olha lá!). A falta de prédios adequados para as equipes poderem trabalhar dignamente, de veículos para deslocamento, de equipamentos, de treinamentos e principalmente de motivação acabam culminando em vistorias mal executadas e funcionários entregando os pontos depois de dar muito murro em ponta de faca. O lado burocrático da fiscalização é muito penoso e torna o serviço limitado e engessado. Associado a tudo isso estão os grandes ocultadores da verdade. Muitos dos cargos de chefia das Vigilâncias e de qualquer outro órgão público estão sujeitos a serem ocupados (ou usurpados) por políticos profissionais ou por funcionários de carreira que recebem o cargo por indicação ou apadrinhamento político e não têm condições técnicas de trazer bons frutos para o trabalho. Muitos destes profissionais de carreira estão lá apenas para cumprir ordens de seus superiores e assinar qualquer coisa. Fazem futriquinhas, como nas novelas. (Além, é lógico, de aliviar a barra de donos de estabelecimentos e pessoas em desacordo com a Legislação) e para pressionar qualquer um que tente ir contra esta maré de desrespeito, marasmo e conformismo.
paredes acima de balcão de lanchonete
formas de padaria no chão em área externa
o local era uma casa adaptada para padaria - sem condições
Causo nº. 03

Certa vez...   recebemos uma notificação de uma funcionária que prestava seus serviços técnicos em uma instituição filantrópica. O problema era relacionado aos pombos que haviam invadido o local. Fomos ao imóvel e notamos que de fato o problema era sério. Tratava-se de uma instituição que atende crianças portadoras de graves deficiências. Algumas faziam uso freqüente de medicamentos que tornam o sistema imunológico menos resistente. Para quem pesquisou sobre a Criptococose, deve saber que os imunodeprimidos são os mais vulneráveis. Mas a situação era muito mais grave. No prédio havia vários pontos onde os esgotos estavam abertos e muitos criadouros de mosquitos em lajes, calhas e recipientes.

     Como já esclareci em postagens anteriores, quase todas as pragas urbanas e espécies da fauna sinantrópica são evitáveis com procedimentos de vedação e limpeza. Mesmo sendo uma edificação grande, com boa vontade, é possível gastar pouco dinheiro e resolver os problemas.
fezes de aves e de roedores em vitrô de área de manipulação de padaria
     Depois de fazer toda a vistoria e os registros fotográficos necessários, tornamos a procurar a pessoa que havia solicitado o atendimento. Esclarecemos todas as situações existentes no local e informamos que faríamos um relatório e uma ficha de orientações. Questionamos então quem eram os responsáveis. Para nossa surpresa, era o “Vereador 2.

     O local estava muito ruim, inviável para a atividade a qual se propunha e, de acordo com pessoas que estavam no local, o “Vereador 2 estaria fazendo uso do prédio para reuniões de seu partido e pessoas do partido estariam fazendo uso dos telefones da instituição para fazer contatos com correligionários de vários outros municípios e estados. Haviam mesmo muitas listas telefônicas de várias localidades na Instituição.
fezes de pombos em cozinha de restaurante
     Nosso problema no local relacionava-se tão somente com as questões de Saúde inerentes às condições precárias do imóvel. Obviamente que, apesar de ser comum, este tipo de situação envolvendo políticos chega a embrulhar o estômago.

     No dia seguinte elaboramos o relatório citando os problemas e solicitando prazos para as adequações. Foi tudo dentro de normas razoavelmente aceitas pela Legislação. (Sempre se observam as condições das pessoas, os tipos de atividades ou os tipos de estabelecimentos para tentar ponderar as condições de resolução dos problemas). O problema é que os prazos não foram cumpridos e a fiscalização foi passada para outra equipe. Claro que o local está totalmente ... totalmente ... ( ... resolvi fazer suspense ... ) ... totalmente ... igual ou pior do que estava. O mais cruel é ver em outdoors que, vez ou outra, o “Vereador 2 divulga seu nome junto das campanhas beneficentes da instituição. Que absurdo!


Vamos ver mais umas imagens...
cozinha de lanchonete - local totalmente aberto (e famoso)
marcas do acesso de ratos em açougue de mercado
grelha de cozinha de restaurante
Causo nº. 04

Certa vez...   ainda novo na Vigilância, fui fazer uma vistoria num bar que há muito tempo não renovava seu alvará. Quando cheguei em frente ao local e vi as condições do lado de fora... já fiquei bastante preocupado. Entrei, aí piorou. Me apresentei a um senhor de uns 75 anos com a barba mal feita e a roupa encardida que estava atrás do balcão, fui ao banheiro lavar as mão e notei que não havia sabão, papel, toalha, higiene e nem água. Ainda assim, me paramentei na porta do banheiro cujos azulejos eram poucos ainda cimentados nas paredes. O cheiro de urina era forte e o vaso sanitário estava bem feio de ver. Enquanto me paramentava olhei para as prateleiras e só vi cachaça. Muitas garrafas empoeiradas de cachaças vagabundas. Sobre o balcão um pote com salsichas (esverdeadas) em conserva, alguns torresmos numa estufa e uma coxinha visivelmente murcha. O chão de todo o boteco estava sujo, cheio de papéis e tampas de garrafas. O forro era de madeira e, quando olhei melhor para cima, fiquei com medo que caísse sobre minha cabeça ou que alguma das aranhas pudesse me aprisionar em teias que deveriam ter mais de uma década ali. Pedi licença e fui para trás do balcão. Nas prateleiras do balcão havia muitos jornais velhos, pedaços de limão já espremidos, copos sujos, garrafas abertas, baratas, poeira e umas calabresas defumadas (que, com um limãozinho ficam uma delícia!).
caixa de gordura de cozinha de restaurante
     Achei que não poderia piorar e cai na besteira de perguntar: “Quem fornece salgados e torresmos para o senhor?”. E ele respondeu: “Ninguém, faço tudo aqui mesmo.” Afirmei: “Mas aqui não tem cozinha.”. e ele disse: “Tem sim. A gente entra pela porta ao lado e tem um salão bem grande aqui atrás.”. Confesso que meu estômago gelou. Percebi que as coisas poderiam piorar...

     Fomos ao tal salão. Era grande mesmo. Maior que todo o bar. Por todo lado haviam coisas quebradas, jogadas e muita poeira. Havia entulhos e muitos papéis e sacolas. Parte do forro já havia caído, aí deu pra ver que perigava do telhado todo vir abaixo. No meio disso tudo vi um fogão bem engordurado com umas panelas. Pensei comigo: “Só falta ser ali o preparo do torresmo!?”. Acho que ele leu meus anseios e disse: “É neste fogãozinho que preparo as coisas.”
depósito de supermercado
     Voltamos para o bar e eu nem sabia por onde começaria minhas orientações. Aquele senhor não tinha nenhuma noção de higiene e de Vigilância. Anos e anos fazendo daquele jeito.

     Peguei um banco, puxei até o balcão, coloquei meu bloco de orientações sobre o balcão e comecei a escrever. Deve ter dado um punhado de itens com prazos bem variados, indo do imediato aos 6 meses. Expliquei tudo detalhadamente ao proprietário e disse que não haveria como renovar seu alvará sem que aquelas coisas fossem concluídas. Além dos itens relacionados à higiene e à proibição de manipular alimentos ali no estabelecimento, acabei pedindo reforma do telhado, do forro, do piso e dos azulejos, do banheiro, da pia... Ele me dizia: “Não sei se vai dar pra fazer tudo isso.”. Convidei-o a atravessar a rua e olhar para seu próprio estabelecimento. De frente para o bar eu perguntei: “Tá feio, num tá? Deve ser o bar mais feio da Cidade!”. Ele então sorriu e disse: “Vamos ver o que eu consigo fazer.”.
verduras em depósito de supermercado
o piso estava repleto de urina e fezes de ratos
     Nem quis conferir os itens de menor prazo, deixei tudo para 6 meses. Um belo dia, conferi minha agenda e vi que naquela semana venceria o prazo de 6 meses. Comecei a preparar o espírito para voltar ao local. Imaginei que muito pouco estaria feito e que infelizmente teria que tomar atitudes mais desagradáveis naquele estabelecimento. No dia em que o prazo venceu, reuni minhas forças e fui a pé e lentamente para o bar. Quando cheguei, já observei que o reboco da fachada estava reformado. Ainda assim fiquei desconfiado e esperando o pior. Subi os dois degraus e passei para dentro do bar. Olhei para o piso e vi um piso novo, simples, mas novo. Olhei para cima e vi que o forro havia sido trocado por um novinho de pvc. Olhei para o proprietário com entusiasmo e disse: “Pelo jeito o senhor fez tudo.”. E ele disse: “Não deu tempo de pintar. O prazo já venceu?”. Afirmei que sim, mas que não havia problema. Ele poderia concluir depois. Fui ao banheiro para lavar as mãos e tratava-se de um banheiro novo, todo azulejado e com tudo funcionando. A toalha de mão tava meio trash, mas, diante de tudo aquilo que eu via... isso não era nada.
confeitaria
     O boteco estava bem mais organizado também. Ele removeu a poeira e todos os lixos e tralhas que só estavam atrapalhando. Até no salão dos fundos a reforma havia sido feita e o fogão era usado só para fazer café.

     Minha alegria era tanta que agradeci ao proprietário por seu comportamento surpreendente. Tanto que quase deixei de observar alguns detalhes que nunca mais sairão de minha cabeça... Enquanto tirava o avental e a toca, olhei para cima do balcão e vi um pote com salsichas em conserva, iguais àquelas esverdeadas do começo deste causo. Tive a curiosidade de abrir e cheirar o pote. Fedia carniça misturada com vinagre, alho e cebola. Tava terrível. Pedi ao senhorzinho que cheirasse e saiu lágrima dos olhos dele, de tão ruim que estava aquele treco. Informei que tínhamos que jogar aquilo fora, por no lixo. Ele rapidamente agarrou o pote e foi para o banheiro. Não entendi, achei que fosse o único cesto de lixo disponível, mas não, era bem pior. Ele jogou todo o conteúdo do pote no vaso sanitário e começou a dar a descarga. As salsichas rodavam e rodavam dentro do vaso, mas não iam embora. Depois de algumas tentativas, ele se cansou e pegou com as duas mãos todas as salsichas que estavam no vaso sanitário e colocou-as de volta no pote. A cena era das mais bizarras e ainda iria ficar um pouco mais... De posse do pote o senhorzinho foi para a rua e colocou as salsichas no pé de uma árvore pra que os cães pudessem comer. Fiquei apenas olhando. Sem lavar as mãos ele veio em minha direção e disse: “Pronto agora tá tudo resolvido.”. E estendeu a mão para se despedir. Não tive como fugir dessa e dei a mão para ele. Ele pegou o pote vazio e colocou na pia do bar. Continuei apenas olhando e não resisti, tive de perguntar: “O senhor vai fazer mais salsichas?”. E ele disse: “Vou, daqui a pouco vou buscar mais, o pessoal gosta de tomar umas comendo alguma coisinha.” Então eu disse: “O senhor vai usar o mesmo pote?”. E ele respondeu: “Vou, mas pode ficar tranqüilo que vou lavar bem direitinho antes.” Expliquei mais algumas coisas, descartamos o pote e fui embora rindo sozinho...
fundo de refrigerador em restaurante
gaiola suja em cozinha de boteco
     Num local simples ... com um senhor de idade (e simples) ... as coisas, mesmo de forma muito estranha, aconteceram. Não somente eu estava feliz... era nítido o sentimento de orgulho daquele senhor em ter dado conta de seu compromisso. Muitos lugares bacanas e com recursos para oferecer higiene e qualidade aos consumidores fazem da produção de alimentos um mero instrumento para o lucro. Desta forma, exploram seus funcionários – que aceitam trabalhar em lugares cheios de ratos, mofados e sujos – e lesam o consumidor – que, no Brasil, está muito longe de fiscalizar seus interesses e direitos.
vestiário de restaurante
deveria ser limpo e ter armários
     Nos causos que contei foram apontadas as participações lastimáveis de políticos tentando interferir em questões de fiscalização que colocavam em risco a Saúde da População.

     De qual lado está esta gente? Tanto o proprietário de um estabelecimento que procura um político para ajuda-lo a burlar a lei quanto o político que se coloca a fazer tal papel estão prejudicando diretamente seus consumidores e eleitores respectivamente. Não seria papel de um vereador saber como andam as fiscalizações em seu Município e lutar para que as normas sejam cumpridas e as equipes tenham condições de trabalho? Afinal eles formulam as Leis e depois querem boicota-las!? Estranho!!!
depósito de restaurante
     Temos também os vereadores sempre citados por donos de terrenos, casas abandonadas, áreas invadidas e todo tipo de coisa danosa à População. São os “quebra multa” ou “quebra galho”. Se você está com seu imóvel ou estabelecimento limpo e não causando problemas à ninguém, você não precisa pedir favorzinhos. Agora, mais feio que pedir o favorzinho, principalmente se você está errado, é o político profissional fazer o favorzinho... é o fim da picada!!! (ou, se o favorecido for o dono de imóvel com criadouros de mosquito, é o começo da picada!!!).
esgoto entupido em restaurante
o local fedia merda e foi interditado
     Pelo que sei, os vereadores e os políticos profissionais “pendurados” nas Administrações Públicas deveriam primar pela população, mas nitidamente não é isso o que acontece. Os vereadores deveriam também fiscalizar o executivo, ou seja, a forma como um ou outro Governo estão fazendo as coisas. Quanto a isso, nem preciso me estender muito. O Prefeito manda, os vereadores aprovam... esta é a regra. Quem hoje parece ser contra... amanhã parece ser a favor. Vale tudo, desde que o pessoalzinho saia no lucro.
fezes de ratos atrás de churrasqueira de restaurante
     Infelizmente, em Araraquara, não bastasse a falta de produção e de importância efetiva dos vereadores em cumprir seus papéis, aumentaram o número de vereadores... e dizem que gastarão menos. Deve ser a tal “matemágica”. A “matemágica” é um tipo de matemática muito utilizada por políticos para esclarecer seus números bizarros para a População desatenta. Através da “matemágica” é possível justificar: os próprios aumentos de salários; as contratações de assessores; as viagens; os almoços; os contratos zilionários com empreiteiras e fornecedores... E quase todos os absurdos possíveis... inclusive os churrasquinhos e outras baladinhas picantes.

     Pense bem antes de dar seu voto para qualquer malandro oportunista por aí e observe melhor as condições dos lugares que você freqüenta para comer ou para comprar seus alimentos. A População parece estar dormente diante do nível das pessoas que estão se elegendo para todos os cargos políticos. Não param para pensar se o candidato tem condições de trabalhar com Leis e com dinheiro público. Não dão à mínima para a forma como os favores políticos são pagos, para quanto isto custa e de onde as verbas são desviadas... Não importa se sai da merenda das crianças ou do remédio dos doentes... até quando?
esgoto aberto em cozinha de restaurante
     Como disse na postagem anterior, há Leis que garantem ao consumidor conhecer os estabelecimentos que frequenta (sejam restaurantes, padarias, lanchonetes...). Permitir o acesso do consumidor às áreas de manipulação é obrigação. Há Leis também que obrigam as Vigilâncias a tornarem suas ações públicas, desta forma parte do que acontece é publicado em algum jornalzinho de circulação local, em letras pequenas, junto aos atos oficiais... para ninguém ler (e ver) mesmo. O que posso garantir, tendo como base minhas experiências profissionais, é que há bons lugares para se fazer uma boa refeição, porém são poucos os que mantêm um padrão razoável. O melhor, quando não for possível fazer o seu próprio rango, é buscar conhecer e prestar muita atenção nos locais que você costuma pedir sua comida ou fazer suas compras. Existem sérios riscos para a sua saúde e para a saúde da sua família em locais que não cuidam da higiene e dos procedimentos de manipulação de alimentos. Tome cuidado e seja exigente. No caso de dúvidas consulte a Vigilância Sanitária de seu Município ou denuncie diretamente aos órgãos de defesa do consumidor (PROCON / CODECON). Se você se sentir prejudicado ou lesado, ações podem ser revertidas em indenizações e os responsáveis podem responder civil e criminalmente por crime contra o consumidor.
gaveta de pista quente de alimento
além do veneno, há fezes de ratos e baratas
badeja de salgados
segundo os funcionários não havia outro lugar para coloca-los...
bancada de fábrica clandestina de torresmos e pururucas
torresmo grudado em parede atrás da fritadeira
local bom para gravação de episódio dos jogos mortais...
     Na próxima semana, não haverá nenhuma postagem. Tentarei melhorar os recursos visuais e a diagramação do Blog.

Para consultar a Legislação ou buscar mais detalhes: